SANTO DE CASA NÃO FAZ MILAGRES” - UM ESTUDO DOS FATORES ARGUMENTATIVOS LIGADOS A ESTE PROVÉRBIO.

 

                Suzete Silva NASCIMENTO (UEL)

 

 

  1. Introdução

 

 

 

Chamar a atenção do consumidor para a mensagem é um dos objetivos principais de qualquer criação publicitária. Se não for vista, a mensagem não poderá ser eficaz, isto é, não poderá desempenhar o seu papel de agente comercial a serviço do produto ou da marca.Nos dias atuais, o universo do discurso publicitário firma-se como um dos mais eficazes e de maior impacto na sociedade contemporânea já tão complexa e heterogênea, tão cheia de tensões, conflitos, expectativas e frustrações.

 E, um dos meios para se atingir com maior precisão um grande número de pessoas, é a utilização da fórmula proverbial. Este estudo pretende demonstrar que os provérbios são utilizados não apenas pela facilidade do uso da frase feita, comum e de domínio de todos, mas também pela força expressiva que esse tipo de enunciado comporta. Em uma pesquisa que realizamos em 2002 nas edições semanais da revista Veja (NASCIMENTO, 2002), selecionamos um grande número de anúncios construídos com o apoio de frases proverbiais e constatamos que o provérbio “Santo de casa não faz milagres” foi encontrado com freqüência.

                   Neste trabalho, procedemos à análise desse provérbio, apontando, ordenadamente, com base no arcabouço teórico da Semântica Argumentativa, os principais elementos lingüísticos de argumentação nele presentes. A hipótese defendida é a de que o discurso jornalístico é altamente persuasivo e subjetivo e as teorias que dão suporte a este estudo são provenientes de dois momentos da retórica: de Aristóteles e sua Arte Retórica, posteriormente Chaim Perelman com a Nova Retórica e Oswald Ducrot com a sua proposta da “teoria da argumentação na língua”.

                 A análise também nos permite afirmar que o enunciado proverbial contido no texto selecionado reforça a idéia de que é impossível a neutralidade da enunciação, principalmente na linguagem publicitária que é sempre destinada ao

outro (consumidor) com o claro objetivo de provocar sua reação (compra de produto anunciado).

 

 

  1. Fundamentação teórica

 

 

 

 TOLDO (2002) afirma que o texto publicitário, cujo gênero textual é basicamente argumentativo, caracteriza-se pela utilização de instrumentos que têm como objetivo “mudar ou conservar determinada opinião ou crença de um público determinado”. A publicidade é sedutora, sendo, muitas vezes, a mola mestra para provocar mudanças no comportamento das pessoas, pois ela usa, principalmente, o sistema lingüístico para difundir uma mensagem de renovação, progresso, abundância, lazer, felicidade, beleza, conciliando o princípio do prazer com o da realidade, indicando o que deve ser usado, vestido, calçado, comprado.

                       Levando-se em consideração os fatos abordados acima, buscamos, nesta análise, verificar esta influência presente nos textos publicitários examinando alguns recursos lingüísticos utilizados na elaboração dos mesmos, tendo em vista as perguntas de pesquisa norteadoras da investigação que formulamos para o direcionamento de nosso estudo: são os provérbios considerados discursos de ensinamentos, advertências, conselhos, ecos de enunciações que expressam um saber consensual, utilizados como argumentos de autoridade e persuasão em propagandas? Quais os provérbios mais empregados? Como eles estão aplicados, na íntegra ou modificados?  De que modo são introduzidos no texto? Quais os principais recursos argumentativos que acompanham a frase proverbial nesses textos?

                   Então, aberto o caminho a ser seguido em nossa investigação, optamos pela Revista Veja para a recolha de centenas de textos publicitários contendo exemplos de propaganda com provérbios e, ela foi escolhida por ser uma das revistas de maior circulação nacional, pois está há vários anos no mercado (desde 1968) e traz, semanalmente, atingindo todos os Estados brasileiros, mais de 50 propagandas dos mais variados estilos e anunciantes. Além disso, é uma revista de informação que não é dirigida especificamente a um público feminino ou masculino e, ainda no que se refere à atividade profissional de seus leitores, todos possuem certo nível de escolaridade.

                   Para confirmar nossa hipótese a respeito da necessidade do estudo dos provérbios em textos publicitários, buscamos em MIEDER (1989: 239), a afirmação de que, realmente, um dos meios de atingir com maior precisão um grande número de pessoas é a utilização dos gêneros folclóricos: “We can find remnants of legends, fairy tales, folk songs, nursery rhymes, riddles,etc. in texts of advertisements”, admitindo a seguir que, sem nenhuma dúvida, o gênero proverbial é o mais utilizado para prender a atenção do consumidor:

 

“Os provérbios têm sido sempre usados para uma manipulação interpessoal e sócio-econômica e nossas agências de publicidade – das pequenas firmas aos luxuosos estabelecimentos na Madison Avenue –descobriram que os provérbios continuam a ser uma arma muito influente para fazer com que as pessoas mantenham a economia crescendo”.(pág.298 – tradução nossa)

 

                    O autor assevera também que o provérbio é ali inserido como argumento mais forte, também sofrendo manipulação. Para isto, os provérbios tradicionais são utilizados em grande escala.No entanto, Mieder afirma que o processo de utilizar o provérbio de forma inovadora também aparece com grande freqüência:

 

“Nós, intencionalmente, nos referimos às estruturas do provérbio com o objetivo de enfatizar que enquanto os provérbios ainda são usados em sua forma original nos anúncios, encontramos mais freqüentemente variações inovadoras nos provérbios para os slogans que não escondem o fato de que eles são baseados na estrutura padrão do provérbio”.(pág.293 - idem) 

                                                       

        De igual modo, pudemos constatar esse fenômeno na pesquisa realizada.A maioria dos provérbios encontrados nas propagandas possui um alto índice de modificação. Inclusive o texto que utilizamos nesse trabalho propõe a variação do provérbio “Santo de casa não faz milagres”, para “O santo de casa já fez milagres lá fora”.

                   O aproveitamento do tema proverbial chama a atenção do leitor na tentativa de seduzi-lo para a leitura do texto. Na realidade, o estudo desse processo de sedução da linguagem é bastante antigo. Remonta da época de Aristóteles, que lá no mundo antigo, classificou, com sabedoria, com capacidade de criação, raciocínio e síntese, em sua obra imemorial a Arte Retórica, os princípios da arte da “técnica de persuasão”.OLIVEIRA (1999), em sua tese “Operadores argumentativos e marcadores discursivos na língua falada”, elabora um minucioso estudo sobre a Retórica. A autora refaz o caminho da argumentação através dos séculos até os nossos dias, cujo principal expoente revela-se em PERELMAN, filósofo de origem polonesa que instaurou a Nova Retórica, a partir dos anos 50, com a publicação, juntamente com Olbrechts-Tyteca, da clássica obra Traité de l´argumentation – La Nouvelle Rhétorique.Revisando os estudos aristotélicos, os autores referem-se à “adesão de espíritos” que a argumentação visa a provocar, no sentido de angariar o apoio a qualquer conceito proposto.

      Outros desdobramentos dos estudos sobre a linguagem, reunindo o discurso das ligações da língua com o homem e a sociedade, culminou no que se passou a chamar Teoria da Enunciação, cujo pioneiro, Émile Benveniste, lingüista francês, em 1970, coloca em evidência alguns aspectos que, até então, não faziam parte das preocupações dos lingüistas, tais como: o locutor, o alocutário, a descrição da enunciação como processo, a atitude do locutor perante seu enunciado, entre outros.    

                 Ao reconhecer a necessidade de explorar esses elementos envolvidos no ato de produção de enunciados, o quadro enunciativo, Benveniste antecipou um caminho que, pouco depois, resultaria na Lingüística da Enunciação. E essa trajetória propiciou o nascimento de uma das áreas mais efervescentes da linguagem, a Semântica Argumentativa, que enfatiza não só o intercâmbio entre os interlocutores na situação discursiva, como também os variados fatores intervenientes em um ato de comunicação.Posteriormente, Oswald Ducrot incrementa a Teoria da Argumentação tradicional, revendo os topoi argumentativos, o conceito de polifonia, introduz as classes e as escalas argumentativas e por último, o estudo das marcas lingüísticas da enunciação, principalmente a questão dos operadores argumentativos.

                    Alguns conceitos referentes às teorias apresentadas estão expostos a seguir, na análise do texto publicitário selecionado, quando destacamos quinze (15)  principais fatores semântico-argumentativos nele presentes.  

 

 

  1. Análise do texto

 

 

Título:

  A Springer Admiral está refrescando

as mil-e-uma noites de Bagdá, no Iraque.

Agora que o santo de casa já fez

milagres lá fora, você tem mais uma razão

prá continuar acreditando nele.

 

Texto:

 

1-       A tecnologia da Springer Admiral é tão eficiente, que o Iraque,

2-       um dos grandes do petróleo, está importando para lá o seu know-how

3-       em ar condicionado.

4-       Um projeto completo para uma fábrica,

5-       com todos os equipamentos.

6-       Nessa transação, outros países ficaram a ver navios.

7-       Também, pudera!

8-       Prá agüentar 45º C durante o dia e 0º C durante a noite dos desertos

9-       do Iraque, só quem está acostumado com os calores do norte

10-   e os brrr frios do sul do Brasil, como a Springer Admiral.

11-   Mas o importante, mesmo, em toda essa história de exportação,

12-   é o reconhecimento da qualidade da Springer Admiral

13-   em terras d’além-mar.

14-   Assim, você pode ter a certeza de estar comprando

15-   um aparelho igualzinho àqueles que estão sendo exportados.

16-   Com a mesma tecnologia.

17-   Do zero aos 45 graus.

18-   Agora que a Springer Admiral já fez milagres lá fora,

19-   com a mesma técnica que sempre usou para fazer milagres aqui

20-   em casa, chegou a hora de você passar para o lado de cá.

21-   Siga os bons ventos da Springer Admiral.

 

Assinatura:

 

SPRINGER ADMIRAL

Fábricas: Canoas(RS), Paulista(PE) e Manaus(AM).

 

 

Análise:

 

 

1) expressão as mil-e-uma-noites (linha 2 do título): destaca um fator de intertextualidade no apelo cultural que remete aos famosos  contos árabes, um grande conjunto de histórias reunidas num único livro que, fiel ao título, é composto, exatamente, de 1001 histórias, cujas narrativas faziam parte da tradição oral e até hoje não se sabe ao certo quando foram passadas para o papel. Mesmo sem autor definido, já que o original nunca foi encontrado, as versões das histórias, atualmente, são célebres no mundo inteiro;

2) forma contraída da preposição prá (linha 5 do título): utilização do termo coloquial em detrimento da forma culta para, valioso recurso que atrai o leitor;

3) estrangeirismo know-how: imprime uma força argumentativa ao que vem sendo afirmado: a companhia agora é internacional,  simbolizando o status elevado na fabricação do produto;

4) frase feita “ficaram a ver navios” (linha 6): esta unidade sintática familiar e consagrada pelo uso ficar a ver navios, é utilizada quando se quer dizer que alguém fica longa ou indefinidamente à espera de alguma coisa.No texto remete à idéia de que outros países, tão longínquos quanto o Iraque também desejaram adquirir o produto e não puderam. Sua origem é relatada como sendo de 1578, em Portugal, quando morreu o Rei, Dom Sebastião, na batalha de Alcácer-Quibir e seu corpo nunca foi encontrado. No entanto, o povo português esperava sempre o retorno do monarca, visitando com freqüência o Alto de Santa Catarina, em Lisboa, mas como ele não aparecia, ficavam apenas a ver navios.

5) interjeição pudera! (linha 7): sendo comum na conversação o uso de expressões interjeitivas que revelam sentimentos, a esta altura do texto, o locutor apresenta a enunciação como arrancada por uma emoção, com a intenção de aumentar o grau de familiaridade ou intimidade com o leitor;

6) onomatopéia substantivada brrr (linha 10): influencia argumentativamente quando, acompanhando a palavra frios, intensifica a importância do uso do condicionador de ar ao passar a sensação de que no sul do Brasil o frio é realmente muito intenso;

7) operador argumentativo mas (linha 11): confirma todas as proposições anteriores quando sugere que, de tudo o que já foi dito, o mais importante é o reconhecimento da qualidade dos produtos da empresa;

8) operador argumentativo mesmo (linha 11): marca o argumento mais forte, no caso, é a qualidade utilizada pela Springer Admiral para fabricar seus produtos;

9) expressão em terras d’além mar (linha 13): segundo KOCH (2000a,p.156) a “seleção lexical é um recurso retórico de grande importância e (...) a escolha dos termos raramente se apresenta despida de carga argumentativa”. Aqui, a escolha de uma expressão não muito comum, um tanto erudita, novamente remete à idéia de que um país tão longínquo interessou-se em importar a tecnologia da Springer Admiral;

10) operador argumentativo conclusivo assim (linha 14): introduz uma justificativa para todo o conteúdo das asserções anteriores e encaminha para a conclusão de que tudo o que foi dito, tendo o objetivo de transmitir segurança ao consumidor;

11) diminutivo com valor intensificador igualzinho (linha 15): a formação sufixal do diminutivo refere-se aos condicionadores de ar que estão sendo produzidos com total qualidade e vendidos ao Iraque, mas que também podem ser adquiridos pelos brasileiros;

12)  repetição dos marcadores de pressuposição agora /    (linha 18): em propaganda quando se trata de fixar na memória do receptor uma idéia, todos os meios de insistência são considerados legítimos. Neste caso, o uso estratégico desses elementos recorrentes, denominados por CARVALHO (2002,p.76) de repetição de igualdade, faz com que o conteúdo da mensagem que se deseja veicular seja memorizado mais facilmente;

13) jogo de palavra com o nome da empresa Springer Admiral (linha 18): há novamente uma alteração do provérbio (já modificado), além de promover mais uma vez o nome da fábrica, incorpora o elemento surpresa na fórmula fixa, ou seja, o provérbio “Santo de casa não faz milagres”, perde seu uso literal duas vezes neste anúncio:

                               1) Santo de casa fez milagres lá fora. 

                                                           2) A Springer Admiral fez milagres lá fora.

14) jogo antonímico com os termos lá fora / aqui (linha 18 e linha 19): encontramos em SANDMANN (1999, p.77) que “em textos de propaganda é freqüente defrontarmo-nos com o jogo da antonímia, isto é, com palavras ou unidades lingüísticas que têm como referentes idéias opostas”. O foco antonímico entre lá fora = Iraque e aqui = Brasil reafirma mais uma vez e com maior poder, a informação de que agora existe uma ligação comercial entre os dois países;

15) o uso do imperativo siga (linha 21): o elemento verbal que finaliza o texto representa um convite, na realidade funciona como um imperativo “revestido de roupagens que camuflam as intenções do texto” (CARVALHO, 2002, p.45), visto que “Siga os bons ventos da Springer Admiral”, na verdade quer dizer Compre os condicionadores de ar da Springer Admiral.

 

 

 

  1. Comentários finais

 

 

                       Neste trabalho, verificamos que os provérbios, enquanto manifestações lingüísticas populares, constituem, indubitavelmente, um valioso recurso de argumentação para a publicidade e, por meio da análise, comprovamos que essas expressões oriundas do senso comum, ancoradas na tradição e na sabedoria do povo, são empregadas de forma deliberada no discurso publicitário, com a finalidade de estabelecer, por meio delas, uma interação entre o produto anunciado e o possível consumidor.

                      Também mostramos, na investigação dos principais fatores de argumentação presentes nos textos publicitários, o reconhecimento do poder persuasivo das palavras que, cuidadosamente escolhidas, muitas vezes atingem o interlocutor de tal forma que ele, enredado pela carga semântica do enunciado, realiza a compra de um determinado produto, acreditando que a simples aquisição desse objeto pode lhe trazer felicidade, segurança, prazer ou conforto.

                  O estudo realizado ampliou também, a visão de que o uso de palavras, aparentemente simples, pode transformar um objeto de pouco apreço em algo notadamente prestigiado. É a carga altamente persuasiva da palavra que a torna uma forte aliada na elaboração de textos publicitários, afirmação atestada por CARVALHO (2002:18): “a palavra tem o poder de criar e destruir, de prometer e negar, e a publicidade se vale desse recurso como seu principal instrumento”. E, citando Bolinger (1980), a pesquisadora, de igual modo, assevera que “com o uso de simples palavras, a publicidade pode transformar um relógio em jóia, um carro em símbolo de prestígio e um pântano em paraíso tropical”.

       E, finalmente, esperamos que a análise tenha contribuído para melhor esclarecer os diversos recursos argumentativos utilizados na mensagem publicitária, tornando possível conhecer mais profundamente sua artimanha, pois, dentro da abordagem semântico-argumentativa, os jogos de linguagem presentes na propaganda analisada, realçam a posição privilegiada dos provérbios como instrumento de argumentação, ressaltando seu valor como “enunciados universais”.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

ANEXO

 

            Propaganda analisada – Revista Veja, veiculada em 22/06/1977, edição nº459:

 
 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

 

CARVALHO, Nelly de. Publicidade – a linguagem da sedução. 3.ed.São Paulo: Ática, 2002.

CHERUBIM, Sebastião. Dicionário de figuras de linguagem. São Paulo: Pioneira, 1989.

GARCIA, Othon M. Comunicação em prosa moderna. 13.ed. Rio de Janeiro: Editora da Fundação Getúlio Vargas, 1986.

LACAZ-RUIZ, Rogério. A sabedoria dos ditados. (1998)a Disponível em: < http://www.hottopos.com/videtur2/roger.html >. Acesso em: 10 de mar.2001.

MIEDER, Wolfgang.American Proverbs: a study of texts and contexts.New York: Peter Lang Publishing, 1989.

NASCIMENTO, Suzete Silva.A argumentação proverbial no discurso publicitário. Dissertação de Mestrado. UEL, Londrina, 2002.

OLIVEIRA, Esther Gomes de. Operadores argumentativos e marcadores discursivos na língua falada.Tese de Doutorado. FFLCH – USP, 1999.

TOLDO, Claudia Stumpf. A relação entre palavra e imagem no texto publicitário: linguagens que argumentam. In: Letras de Hoje. Porto Alegre, v.37, n.3, p.149-162, setembro, 2002