História político-social brasileira das décadas de 50 e 60 presentes no romance Quarup de Antonio Callado

 

 

DEPIERI, Catharina Helena Salviatto - UEL (PG)[1]

 

 

            O livro Quarup de Antonio Callado revela aspectos da cultura, da sociedade e da política brasileira. Além das questões políticas-sociais das décadas de 50 e 60, o livro aborda o lado humano das personagens que divergem umas das outras por suas crenças e utopias, e impressionam dado aos seus aspectos sentimentais, existencialistas e de caráter, ambientadas em uma sociedade que continha peculiaridades da época.

 A trajetória do padre Nando, que perde a vocação religiosa, e toma consciência do atraso nacional do nosso país, luta pela classe desfavorecida da população brasileira ao término do romance. Contudo, o autor nos mostra os fundamentos da sociedade brasileira nas décadas de 1950 e 1960 permeados pela trajetória vivida pelo protagonista da ficção literária.

 No romance estão todos os assuntos que então dominavam o debate político e existencial: o suicídio de Vargas, a renúncia de Jânio Quadros, a publicação da encíclica Mater et magistra de João XXIII, o movimento político-militar de 1964, a fundação das Ligas Camponesas e dos Sindicatos de Trabalhadores Rurais, a eleição do Governador Miguel Arraes em Pernambuco, a organização e mentalização popular pelo Partido Comunista e grupos trotskistas, a revolução sexual, o feminismo, a proteção aos índios, a guerrilha, as drogas, etc.

No Brasil, existe uma miscigenação de raças e isto é retratado no livro, questionando o tratamento dado aos indígenas que já eram donos dessas terras até serem “brutalmente” ou “religiosamente civilizados” pelas missões jesuíticas não só quando o Brasil foi descoberto por Álvares Cabral e passou a ser uma colônia de Portugal, mas também durante várias décadas após o descobrimento.

 

“Os índios dentro de pouco tempo não têm mais nem uma horta neste país que era deles. Estamos matando os selvagens de fome.” (Quarup, p.127)

               

 

Rapidamente os índios perderam as terras em que viviam e a sua liberdade. A partir de então foram marginalizados e intitulados “selvagens”. Os personagens defendem os índios ao longo do livro, através do Serviço de Proteção ao Índio, chefiado por Ramiro, no entanto, poucos deles ainda demonstram resquícios dessa perspectiva de selvagem, tal como o momento em que um dos membros do grupo que estava no Xingu afirmou que mataria os índios se fosse preciso para garantir sua sobrevivência.

O episódio em que Sônia foge com Anta revela o encontro de duas culturas diferentes e que se funde em uma só. Quando Sônia diz a ele que deveriam fugir o Anta diz que ele dará sua mulher ao Falua e ela o convence de que isso em nada adiantaria. Predominam-se os valores culturais que são historicamente construídos por cada civilização. O contato dos brancos com os índios resulta além da fusão cultural em doenças que esses contraem (sarampo e diarréia, por exemplo) ressaltado no livro.

A expedição (Nando, Francisca e outros) vai ao Xingu demarcar o ponto central do país, em uma época de conturbação política causada pelo atentado ao Lacerda e aos últimos acontecimentos do governo de Getúlio Vargas, que era esperado para a inauguração do parque do Xingu. Quando os índios preparavam uma festa, o quarup, o grupo recebe a notícia de que Vargas havia se suicidado. Visualiza-se um momento histórico marcante da história brasileira.

O quarup, festa que intitula o livro, denota um ritual indígena de celebração dos mortos, com uma grande festa em homenagem aos que partiram com bebidas, comida, e alegria.

No décimo aniversário da morte de Levindo, Nando resolve comemorar a data com um jantar, um banquete com todos os seus amigos, pescadores, prostitutas e antigos companheiros de ligas.

Nando decora o muro do quintal para o jantar, com uma homenagem a Levindo, construindo um texto à maneira da alfabetização libertadora e opondo-se a poesia concreta.

LA LE LI LO LU

VA VE VI VO VU

VÃO VEM VIM

DA DE DI DO DU

LEVE

VINDO

VIVI

LEVINDO  (Quarup, p. 454)

 

No início da década de 60, o movimento denominado Poesia Concreta buscava soluções no aproveitamento visual da página em branco, na sonoridade das palavras e nos recursos gráficos. O autor utiliza-se desses recursos no texto acima, divergindo apenas na construção de sílabas começadas por restrito número de consoantes que formam sílabas e palavras, ao contrário da poesia concreta, em sua essência, em que a descontrução de uma palavra denota a significação do poema.

Ao iniciar as festividades de comemoração da morte de Levindo, Nando afirma:

 

“Estamos hoje aqui para comer o sacrifício de Levindo, comer sua coragem e beber seu rico sangue de brasileiro novo.” (Quarup, p. 430)

               

Este excerto revela uma intertextualidade com a eucaristia cristã, em que a ostia simboliza o corpo e sangue de Jesus Cristo.

A cena do grande jantar é simultânea à grande Marcha da Família com Deus pela Liberdade. Os participantes da marcha, juntamente com a polícia, invadem a festa: muitos são presos, alguns fogem e Nando é espancado quase até a morte.

Ao identificarem o ponto central do país, Fontoura morre no local com o rosto sob um grande formigueiro, e esta cena representa a derrocada simbólica de um sonho de desenvolvimento da nação e pessimismo com relação aos acontecimentos que, na década seguinte (1960), traumatizariam os brasileiros, a ditadura militar.

O homenageado na placa fincada no Centro Geográfico do Brasil era trotskista e morreu defendendo a causa dos trabalhadores rurais que reivindicavam salários atrasados. Após o seu falecimento, Francisca (ex-noiva de Levindo) preocupa-se em dar continuidade ao seu trabalho e Nando a auxilia.

Contudo, a luta dos camponeses ganha força, sob o governo de Miguel Arraes, ao qual, entretanto se opõe Januário, o líder do movimento. Nando resolve ajudar no trabalho das ligas. Com o golpe militar de 31 de março de 1964, Goulart é deposto e, em Pernambuco, Arraes é afastado. É nesse momento retratado no livro a exclusão da placa com homenagem a Levindo substituída por uma da Revolução de 31 de março de 1964.

 

“... a inscrição em letras verdes no ladrilho branco: Terra do Centro Geográfico do Brasil. À memória de Levindo, amigo dos camponeses. O azulejo tinha sido arrancado. Tapado o buraco, apoiada contra a base do monumento, uma tábua quadrada, provisória, com os dizeres: Terra do Centro Geográfico do Brasil. Viva a Revolução. 31 de março de 1964.” (Quarup, p. 369)

 

Notamos que duas forças políticas opostas disputam o direito de dispor do autêntico patriotismo, de um lado a revolução de esquerda homenageia Levindo e de outro, o golpe militar de direita substitui a inscrição anterior por uma mensagem comemorativa à revolução de 31 de março.

Devido à participação de Nando na alfabetização libertadora pelo método de Paulo Freire, voltada para um modelo construtivista de ensino e aprendizado e que traz a tona o conhecimento prévio dos alunos como a profissão e a causa de que todos compartilhavam, além do aliciamento de camponeses para o Partido Comunista, o levará a prisão.

Com relação ao método de Paulo Freire, é importante ressaltar que o seu trabalho se iniciou em 1962 no Nordeste, onde havia 15 milhões de analfabetos para uma população de 25 milhões de habitantes, e em 45 dias foi possível alfabetizar 300 trabalhadores, o que impressionou a opinião pública, e por essa razão o método foi aplicado em todo o território nacional, inicialmente nas cidades e depois prolongado para as áreas rurais.

Inicialmente os políticos apoiaram o método de alfabetização de Paulo Freire, pois era interessante que aumentasse o número de eleitores, mas segundo Freire logo perceberam que a sua intenção não era de mobilização de massas, mas a conscientização para a democracia, pois assim estaria preparando a população para a libertação.

No golpe de Estado (1964) o trabalho realizado no campo da educação de adultos e da cultura popular foi interrompido, pois foi preso por 70 dias, submetido a interrogatórios e refugiou-se na embaixada da Bolívia. Foi considerado como um “subversivo internacional”, um traidor de Cristo e do povo brasileiro.

Notamos que Paulo Freire lutou pelas classes desfavorecidas e pela justiça, sendo severamente injustiçado pelo regime ditatorial por não atender aos seus interesses. No entanto, seu trabalho é reconhecido e amplamente divulgado no que tange a educação voltada para a realidade e o contexto em que os alunos estão inseridos.

Assim como Paulo Freire e tantos outros brasileiros de renome, Nando é preso e sofre agressões verbais e torturas, práticas essas comuns utilizadas pela ditadura militar, retratada a seguir:

 

“O eletrecista olhou Nando, balançou a cabeça e adotou um ar de dentista conversando com criança:

_Ah, não vai dizer que doeu tanto assim. Um choquinho à-toa!” (Quarup, p. 359)

 

 

O autor aborda a perseguição ocorrida durante a ditadura militar, a censura a livros, as torturas que vão desde choques e câmaras frias, além do exílio representado pela ida de Francisca a Europa, relacionando-se a questão social, ou seja, o poder aquisitivo que sua família detinha não a levou a prisão, diferentemente de Nando e de outros companheiros seus que lutavam pela mesma causa.

                O marxismo é visualizado no vocabulário, empregado frequentemente por Otávio, tais como Revolução. E o comunismo é demonstrado na obra e por muitas vezes discutido entre os personagens, tais como na página 41:

 

“_Parece que o partido está crescendo _disse Nando._Pelo menos vegetativamente. O senhor sabe, Dom Anselmo, é coisa animadora dizer à gente pobre que vai ser distribuído entre todos o dinheiro que hoje está nas mãos de alguns. Esta é a imagem popular do comunismo.” (Quarup, p. 41)

               

               

 Os movimentos políticos (Marxismo, Comunismo, etc), históricos (ditadura militar), sociais (feminismo, revolução sexual, etc), religiosos e culturais (Igreja Católica e seus preceitos, quarup, carnaval) e populares (Ligas Camponesas, guerrilha) evidenciam a efervescência de idéias, movimentos, crenças e utopias, das décadas de 50 e 60.

Ainda com relação à imagem e valores inerentes a sociedade que o circundava, Nando participa de um acontecimento que choca o leitor, no primeiro capítulo do romance “Ossuário”, o do estupro de Maria do Egito pelo capataz de um senhor de engenho.

Neste são tratados aspectos político-sociais importantes, tais como o religioso pela pregação de Nando ao afirmar que o amor e o perdão seriam os caminhos para Nequinho (pai de Maria do Egito) e não o assassinato como ele prometera ao agressor de sua filha caso este ato de violência lhe rendesse fruto.

 Por ela ter engravidado e com medo da reação de seu pai, ela e seus amigos Winifred e Leslie a ajudam a abortar a criança, este é mais um fato que está ligado à religiosidade, que preza pela vida e não aceita o aborto de forma alguma. A influência que o patrão detinha devido sua classe social e financeira permitiu a impunidade e a falta de castigo ao agressor. E à Maria do Egito não restava opção a não ser a prostituição, por não ser mais virgem e não estar casada, segundo os preceitos e valores sociais e culturais dos quais ela compartilhava.

Ao retratar o preconceito da sociedade à menina que foi violentamente estuprada além das mulheres com as quais Nando mantém relações sexuais e todas num universo de prostituição, o autor denota questões feministas além da revolução sexual em voga na época.

O celibato é discutido no livro a partir da sobreposição dos desejos sexuais, de Nando e também de Hosana, ao voto religioso:

 

“_Puxa!_disse Nando_a gente tem que reconhecer que você remendou  sua vida com grande competência.

_Remendou não, Nandinho, estou reconstituindo o tecido rompido. Tenho sérias esperanças de retornar ao redil, ao regaço da Mãe Igreja. É verdade que hoje sou homem casado, mas o celibato está caindo de podre nos bastidores, em Roma.” (Quarup, p.330)

               

Hosana casa-se e possui a esperança de que algum dia não será mais necessário a castidade para ser padre. Nando por sua vez, de maneira inesperada, se torna uma “autoridade em assuntos carnais do amor” aconselhando mulheres e homens na obtenção de prazer.

                Contudo, é importante notarmos que a questão do celibato ao longo da história vem sendo noticiada devido a não rigorosidade de cumprimento deste requisito por padres e freiras. É comum ouvirmos casos de romances entre padres e freiras (como é citado no capítulo I) ou de padres que deixam a batina. Nesse sentido, há uma grande discussão da sociedade a respeito, existem posicionamentos a favor e contra o celibato dos padres e freiras. Somente a história por vir nos dirá se essa prática perpetuará ou não nas religiões cristãs, mesmo porque em algumas religiões evangélicas são permitidos os casamentos de seus pastores.

Após a recuperação de Nando ao espancamento sofrido, salvo graças a seus amigos, ele e Manuel Tropeiro planejam fugir no carnaval, considerada uma manifestação brasileira por excelência:

 

“_Não tem nada que resista ao carnaval, Deolinda_disse Nando._O Manuel vai voltar em cima do carnaval. É a época melhor para a gente fugir e é também a melhor para eu tranquilamente dar um pulo em casa e apanhar as cartas.” (Quarup, p.460)

 

 

No segundo capítulo, intitulado “O éter”, Ramiro, Falua, Vanda e outros cheiram lança-perfumes, tóxico cujo consumo é exorbitante na festa carnavalesca. Existe uma crítica implícita à utilização de drogas, a alienação das pessoas com os acontecimentos ao seu redor além da propensão para a lubricidade em tais ocasiões.  

No final do livro, Nando opta por se dedicar a causa partilhada também por Manuel Tropeiro e outros no Sertão de Pernambuco, abdicando de seu amor por Francisca. E a imagem final nos leva a crer que ele se consagraria um mártir da história brasileira na guerrilha contra o regime militar para a qual partia.

Ou seja, a vida e a história continuam...

O passado mostra-nos uma lição, e o presente escolhido e modificado pelas pessoas que integram a sociedade, transformam o futuro da nação.

 

 

 

 

 

 

 

 

Referências

 

ÁVILA, Henrique Manuel. Da urgência à aprendizagem. Sentido da história e romance brasileiro dos anos 60. Londrina: Editora UEL, 1997.

 

CALLADO, Antonio. Quarup. São Paulo: Círculo do Livro.

 

FREIRE, Paulo. Conscientização: teoria  e prática da libertação: uma introdução ao pensamento de Paulo Freire. São Paulo: Cortez & Moraes, 1979.

 

 





[1] Graduada em Letras, com habilitação em Língua Inglesa, pela Universidade Estadual de Londrina. Aluna da Especialização em Língua Portuguesa da Universidade Estadual de Londrina.