DISCURSOS INTERATIVOS: GÊNEROS TEXTUAIS

 

 

BÁCCARO, Liége (G-UEL)

COELHO, Célia Tamara (G-UEL)

MASSAMBANI, Ana Paula (G-UEL)

NASCIMENTO, Elvira Lopes (Orientadora-UEL)

 

                                                        

Resumo:

                Este artigo visa observar a freqüência ou ausência de discurso interativo em três diferentes gêneros textuais, recorrendo-se às categorias de frases não-declarativas e dêiticos. 

 

                O objetivo deste trabalho é o de analisar a interação nas ações de linguagem que configuram três diferentes gêneros textuais.

 

Palavras-chave: interação; língua portuguesa; gênero textual.

 

 

  1. Introdução

Os PCNs de língua portuguesa apontam as vantagens do ensino de leitura, produção e análise lingüística orientado por gêneros textuais para o desenvolvimento da competência lingüística, textual e discursiva dos alunos.

Para nós, recém-egressos do Ensino Médio, essa abordagem da língua e da linguagem não é uma realidade fácil de ser compreendida e explorada. No decorrer do ensino fundamental e médio vimos nossas aulas de Língua Portuguesa serem embasadas em estudos gramaticais que não ultrapassavam o nível da frase. Até mesmo a leitura e a produção de textos era “trabalhada” de forma descontextualizada, ou seja, sem que se considerassem aspectos contextuais (históricos e sociais) da situação de produção e de recepção dos textos.

Com a nossa entrada no curso de Letras da UEL, já percebemos que a organização dos conteúdos em língua portuguesa deve ser distribuída nos eixos do uso e na reflexão sobre esse uso da língua e da linguagem. Isso nos leva a considerar o texto como a unidade material e o gênero textual como o objeto de ensino – aprendizagem de língua portuguesa.

Diante disso, este trabalho se propõe a apresentar um exemplo concreto de trabalho didático com o texto?gênero, a partir do qual as noções de frase verbal, frase não-verbal, frase não declarativa e coesão textual e dêiticos são aprendidos a partir do uso que delas fazem os autores de textos pertencentes aos gêneros textuais diário íntimo, reportagem e anuncia publicitário.

Organizamos este trabalho em 3 seções: a primeira apresenta o conceito teórico de frase, tipos de frase e, a seguir, se refere à frase nominal e frase verbal; a segunda seção se refere à referência endofórica dêitica; finalmente, na terceira seção apresentamos os dados da análise e os comentários sobre os resultados.

 

 

1.Frase.

Os autores consultados são unânimes ao afirmar que frase é um enunciado capaz de estabelecer comunicação, ou seja, transmitir uma mensagem eficientemente. Esse critério permite classificar como frase não somente enunciados longos e complexos, mas também outros extremamente simples:

a)       Fogo!

b)       Socorro!

        Os exemplos acima ilustram o que Francis (1958) considera “frase de situação” ou segundo Marouzeau (1946) “frase inarticulada”. Trata-se de enunciados que não possuem integridade sintática, mas conseguem exprimir informações em uma situação de comunicação. São consideradas frases de situação: as saudações, despedidas, vocativos e fragmentos de perguntas e de respostas do tipo: “Quem?” ou “Onde?” quando utilizadas em um diálogo.[1]

Além da função comunicativa, a frase se caracteriza no texto escrito por iniciar com letra maiúscula e terminar com ponto final, exclamativo ou interrogativo. Na oralidade, início e final de frase são demarcados pela entonação.

1.1Tipos de frases.

Para desempenhar sua função comunicativa, a frase deve adequar-se às diferentes situações de uso e às necessidades do locutor. Por isso, existem diferentes tipos de frases, que apresentamos a seguir:

Frases declarativas: são aquelas que visam informar ou declarar algo. Podem ser afirmativas ou negativas. Exemplos:

a)       O governo mostrou-se incapaz de resolver a crise.

b)       As escolas públicas não aderiram à greve.

Frases interrogativas: ocorrem quando o emissor deseja obter uma informação. A interrogação pode ser direta (a) ou indireta (b).

a)       Quem causou o acidente?

b)       Gostaria de saber quem causou o acidente.

Frases imperativas: São enunciados que pretendem influenciar diretamente o comportamento do receptor. Exprimem ordens, súplicas ou conselhos, através de verbos no modo imperativo.

a)       Feche a porta, por favor.

b)       Não faça barulho, estamos estudando.

Frases exclamativas: expressam estados emotivos do locutor (surpresa, euforia, raiva, etc...).

a)       Que dia bonito!

b)       Você me paga!

c)       Ai, que susto!

Frases optativas: revelam desejos do emissor em relação a algo ou a alguém.

a)       Boa sorte!

b)       Deus te guie!

Entre os tipos de frase acima mencionados, as declarativas ou assertivas ou assertivas são as menos interativas uma vez que pode-se inferir que textos constituídos por tais frases são objetivos e não declarativos, como é o caso dos gêneros de discurso científico. As frases não-declarativas caracterizam-se pela interação entre produtor e destinatário.

1.2. Frase Nominal e Frase Verbal

Há frases que prescindem de verbos. Formadas apenas por nomes, elas podem trazer implícitas o sentido de um verbo, como no exemplo:

a)       Cada louco com sua mania.

O exemplo acima pode ser compreendido como: “Cada louco tem sua mania” ou “Cada louco age conforme sua mania”, embora a frase original não tenha verbo. Característica de provérbios e máximas, a frase nominal é breve e incisiva. Frase verbal ou Oração é um enunciado que se organiza a partir de um verbo ou locução verbal. Do ponto de vista da estrutura sintática, Silva considera oração a frase que tem sujeito e predicado1. Cabe aqui fazer uma distinção: toda frase verbal é uma oração, mas nem toda oração é uma frase. Veja o exemplo:

a)       Quero que você aprenda a lição.

A frase acima é composta por duas orações:”Quero” é a primeira, e a segunda é “ que você aprenda a lição”. Essas orações, se consideradas separadamente, não constituem frases, pois não fazem sentido sozinhas. Casos como este levam à conclusão de que orações são, na verdade frases verbais, e fragmentos de frase que organizam-se a partir de verbos ou locuções verbais. Portanto, a oração só é frase quando corresponde a um período simples.

 Período é a frase organizada em uma oração (período simples) ou em duas ou mais orações (período composto). Todo período começa com letra maiúscula e termina em ponto (final, interrogativo ou exclamativo) ou reticências. Veja os exemplos:

 Terroristas ameaçam a paz mundial. – Período simples.

 

 

2. A Referência Endofórica por Dêiticos1

Segundo Maingueneau (2001), a comunicação humana situa-se em relação ao próprio ato da enunciação: o lugar, o tempo em que ocorre e as pessoas essenciais desse ato (enunciador e co-enunciador). É considerado dêitico todo elemento que evoca um referente presente não no co-texto, mas a enunciação. Em relação à anáfora, o dêitico se diferencia exatamente pela localização do referente: se ele se encontra no co-texto, trata-se de relação anafórica, se o referente só é identificável no contexto da enunciação, a referencia é do tipo dêitico. Portanto, a anáfora refere-se a elementos já mencionados no co-texto enquanto o dêitico introduz um novo elemento no discurso. Veja:

a)       Joana chegou: ela parece feliz.

b)       Você chegou tarde.

No exemplo a “ela” é uma referencia anafórica, pois remete à Joana, elemento do co-texto, portanto não é dêitico. Já no exemplo b, há referencia dêitica, pois “você” refere-se ao co-enunciador, elemento da enunciação. O dêitico tem significado estável (“você” designa sempre o co-enunciador).

Segundo Vuillaume (1986), existem dêiticos transparentes ou diretos como eu, tu, aqui e agora, cujo referente é reconhecido obrigatoriamente pela situação da enunciação. Além desses, há dêiticos opacos ou indiretos, como por exemplo, “este menino” cuja identificação não é imediata.

Segundo Charadeau (2004), os dêiticos classificam-se em dêixis2 textual e dêixis memorial. Chama-se dêixis textual os dêiticos que indicam passagens do próprio texto, tais como: “acima” e “no parágrafo anterior”. A dêixis memorial diz respeito às expressões nominais demonstrativas cujo referente está na memória do enunciador.

2.1 Dêiticos de Pessoa – Pessoa e Não-Pessoa

Todo discurso tem, mesmo que implicitamente, um enunciador (quem fala ou escreve) e um co-enunciador (quem ouve ou lê). Os dêiticos de pessoa destinam-se a representar seus referentes em uma enunciação podendo ser: pronomes de primeira e segunda pessoa (eu,tu,nós,vós); os determinantes (meu/teu, nosso/vosso e respectivos femininos e plurais) e pronomes (o meu/o teu, o nosso/o vosso, o seu e suas formas femininas e plurais).

Dêiticos de pessoa são, portanto, marcas textuais que evocam as pessoas envolvidas no discurso.

Pessoa e não-pessoa

Os elementos da terceira pessoa (ele/ela) fazem referência a todo ser animado ou inanimado que não seja nem enunciador nem co-enunciador. Esses elementos são considerados não-pessoas pois, de acordo com Benveniste3 (1966), eles não compartilham a mesma importância dos co-enunciadores (primeira e segunda pessoas) na enunciação. Ressalva-se, contudo que pessoa é uma categoria lingüística que se aplica a cada enunciação em particular. O ser representado em um texto como terceira pessoa (não-pessoa) pode tornar-se primeira pessoa em outro texto caso tome a palavra.

2.2 Dêiticos temporais

São marcas textuais que se referem ao tempo da enunciação (presente, passado e futuro). Os verbos com suas desinências de tempo, palavras e expressões com valor temporal (agora, daqui a um mês, ontem, há dez anos) são considerados dêiticos de tempo. Observa-se que nem todas as referências temporais são dêiticos:

a)       Não a vejo há dois dias.

b)       Comprei o carro dois dias antes do Natal.

 Embora semelhantes no sentido, a primeira expressão é dêitica, a segunda não. No exemplo a, “dois dias” é compreendido em relação ao momento da enunciação; já no exemplo b, “dois dias antes” só é compreendido em relação ao co-texto (o Natal).

2.3 Dêiticos Espaciais

É o tipo menos numeroso de dêitico. Distribuem-se a partir do ponto de referência constituído pelo lugar da enunciação. Assim “aqui” designa o local da enunciação. É importante observar se a referência espacial possui referente no co-texto, caso isso ocorra, a expressão não é dêitica.

a)       José está aqui. (dêitico).

b)       Tenho uma casa no litoral. Passo as férias . (não é dêitico).

Dêiticos espaciais: aqui, em frente, essa mesa (objeto próximo ao co-enunciador), em Paris, na escola.

 

 

 3.Gêneros textuais

 

3.1 Diário íntimo (fictício)

O diário íntimo é um gênero textual que pertence ao agrupamento do relatar. Como num relato o produtor reproduz uma experiência vivida e situada em um lugar e um tempo bem determinado, o autor faz uso de um discurso bem interativo, que o expõe na intimidade e, ao mesmo tempo, procura trazer para perto de si o destinatário dando a ele impressão de familiaridade.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Número de frases verbais (orações)

Número de frases nominais

Número de frases não-declarativas

18

1

2

 

 

           

 

Esse texto é constituído por um relato de discurso interativo, porque possui frases não-declarativas, além disso, apresenta marcas dêiticas referentes a pessoa (eu,meu) e de tempo (tempos verbais que indicam ações anteriores à enunciação – o pretérito dêitico).

                O gráfico a seguir demonstra a distribuição dessas marcas lingüísticas no texto:

 

   

 

O diário íntimo caracteriza-se pela expressão de sentimentos, emoções, e pensamentos do locutor. Essa expressão dá-se através das frases não declarativas, que demonstram estado de espírito de quem fala ou escreve, em relação ao discurso que produz. Além disso, por ser centrado no produtor (primeira pessoa), o diário possui dêiticos principalmente de pessoas. O gênero caracteriza-se pelo texto informal, de caráter íntimo, e portanto bem interativo.

 

3.2 Notícia de Jornal

            Segundo Baltar (2002), a reportagem envolve a coleta de informações (dados, entrevistas, imagens) e a sua transmissão ao destinatário na forma de um relato interativo. Predominam na reportagem as seqüências narrativas e dialogais, além de apresentar descrições.

 

Número de frases verbais (orações)

Número de frases nominais

Número de frases não-declarativas

56

-

-

            Como se pode verificar no gráfico a seguir, o texto acima caracteriza-se pela ausência de frases não-declarativas. Isso ocorre devido à função do mesmo, isto é, a de transmitir objetivamente as informações. O texto informativo destaca o referente e omite o ponto de vista do locutor em relação ao tema exposto.

                        Apesar da ausência de frases não-declarativas, a reportagem constitui-se como discurso interativo, pois apresenta referências dêiticas de pessoa (nome do locutor) e de tempo (“há dois anos”, “hoje”, é o pretérito dêitico). A entrevista como coleta de informações é típica do gênero reportagem, e fica evidente no texto pela presença de falas dos entrevistados. 

 

3.3 Anúncio Publicitário

 

Quer pagar quanto?
                 Hoje, você compra  no carnê uma camera fotográfica digital.

Não deixe para última hora!
                
   Casas Bahia dedicação total a você!!!

      

 

 

 

 

 

 

Número de frases verbais (orações)

Número de frases nominais

Número de frases não-declarativas

3

1

3

 

         O anúncio é constituído por discurso interativo, visto que apresenta dêitico de pessoa (você) e de tempo (presente do indicativo, que indica o momento da enunciação). Além disso, o anúncio apresenta também modo verbal imperativo, caracterizando uma função lingüística conativa, e frases não-declarativas, que reforçam a interatividade.

                O gráfico a seguir permite uma melhor visualização dos resultados da análise. 

O texto publicitário tem função conativa, isto é, visa obter um determinado efeito sobre o receptor: convencê-lo a adquirir um produto. A propaganda é, portanto, um discurso com grande interação entre os co-enunciadores, o que se expressa pelas formas verbais imperativas e pelos dêiticos, especialmente pessoais (segunda pessoa).

 

 

4. Considerações Finais

                Esta pesquisa permite mostrar que o estudo dos elementos lingüísticos do sistema da língua portuguesa pode ser embasado no estudo do uso que os usuários fazem dos elementos desse sistema e isso se dá concretamente nos textos/gêneros e no estudo dos aspectos do contexto de produção na produção dos textos. A presença das marcas lingüísticas estudadas (frases não-declarativas e dêiticos) nos mostram que o diário íntimo,  o anúncio publicitário e a reportagem são constituídos por discursos que apresentam marcas da interação, ou seja, da situação de produção. 

 

 

5.Bibliografia

ILARI, Rodolfo. Introdução à Semântica: brincando com a gramática. São Paulo: Contexto, 2003.

MEGALE, Heitor ; MATSUOKA, Marilena. Linguagem, Leitura e Produção de Texto. São Paulo: FTD, 2000.

PASQUALE & ULISSES. Gramática da Língua Portuguesa. São Paulo: Scipione, 2003.

SILVA, Luciano Correia. Análise Sintática. Bauru: Jalovi, 1999.

FARACO & MOURA. Gramática Nova. São Paulo: Ática, 1992.

KOCH, Ingedore Villaça; SILVA, Maria Cecília P. de Souza. Lingüística Aplicada ao Português: Sintaxe. São Paulo: Cortez, 1993.

BALTAR, Marcos. Competência Discursiva e Gêneros Textuais. Caxias do Sul (RS): EDUCS, 2004.

MAINGUENEAU, D. Análise de Textos de comunicação. São Paulo: Cortez, 2001.

MAROUZEAU, J. Précis de Stylistique Française. Paris: Editeurs, 1946.

FRANCIS, W. Nelson. The Structure of American English. Nova Iorque: The Ronald press Co., 1958.

http://www.ipv_pt/forumedia/f2_ideia7.htm

 

 

 

 

 



[1] A raiz etimológica do vocabulário “dêixis” remete para a  noção de mostrarão e ostensão.