Resenha cinematográfica: um gênero textual para o ensino de Língua Portuguesa na abordagem do Interacionismo Sócio-Discursivo

 

BARROS, Eliana Merlin Deganutti (UEL – G)

NASCIMENTO, Elvira Lopes (UEL)

 

Introdução

 

            Este trabalho é fruto da participação no projeto de pesquisa “Gêneros Textuais no Ensino Médio: uma Abordagem para o Ensino de Língua Portuguesa” da Universidade Estadual de Londrina sob a coordenação da Dra. Elvira Lopes Nascimento. Tal projeto tem como objetivo contribuir para a formação do professor de Língua Portuguesa, possibilitando a instrumentalização dos Parâmetros Curriculares no que diz respeito aos gêneros textuais como objeto de ensino-aprendizagem. O construto teórico desta pesquisa advém de estudos de Bronckart (1997/2003), Schneuwly e Dolz (1998) e de outros estudiosos, numa perspectiva do interacionismo sócio-discursivo (ISD).

            A resenha cinematográfica, um gênero da esfera jornalística[1], foi o objeto de estudo escolhido para a construção de um modelo didático[2] que visa instrumentalizar o professor do Ensino Médio no ensino de Língua Portuguesa. A intenção de se estudar este gênero partiu de observações em salas de aulas e de entrevistas informais com professores do Ensino Médio da rede pública. Primeiramente, foi detectado o interesse destes educadores em se trabalhar com textos da esfera do argumentar – o que se justifica, em parte, pela ênfase de pedidos deste “tipo de texto” nas provas de redação dos vestibulares. Em segundo lugar, observou-se o grande fascínio dos estudantes pela linguagem cinematográfica, ou seja, como os filmes exercem um poder de sedução nos jovens, e de como esta linguagem é bem recebida na escola. Um outro ponto que foi levado em consideração para a seleção, foi a interdisciplinaridade[3] que o trabalho com a resenha cinematográfica pode proporcionar numa instituição de ensino, já que o filme a ser resenhado pode ser trabalhado por outras disciplinas (Artes, História , Filosofia, Geografia, etc.) em conjunto com a disciplina de Língua Portuguesa.

            Para esta apresentação parcial do estudo do gênero “resenha cinematográfica”, organizamos nosso trabalho da seguinte forma: a) a opinião de alguns experts sobre o gênero “resenha” e “resenha cinematográfica”; b) os pressupostos teóricos do ISD; c) o contexto de produção do corpus da pesquisa; d) a organização seqüencial argumentativa da resenha cinematográfica.

 

1. O que Dizem os Especialistas sobre o Gênero “Resenha”

 

            O termo “resenha” é motivo de divergências entre os especialistas e estudiosos da linguagem, muitas vezes, entrando em conflito com o termo “resumo”. Para chegar aos possíveis esclarecimentos sobre a questão da conceitualização deste gênero textual, é necessário o confronto de diferentes abordagens. Iniciaremos pelas definições que trazem alguns dicionários:

 

re.se.nha s.f.1 lista ou descrição minuciosa (r. dos principais fatos do dia) 2 resumo crítico do conteúdo de livros, notícias etc. ~ resenhar v.t.d. (MíNI HOUAISS: 2004)

 

resenha. S.f. 1. Ato ou efeito de resenhar. 2. descrição pormenorizada. 3. Contagem, conferência. 4. Notícia que abarca certo número de nomes ou fatos similares. (NOVO DICIONÁRIO BÁSICO DA LÍNGUA PORTUGUESA FOLHA/AURÉLIO: 1004/1995)

 

            Como podemos verificar, as acepções do vocábulo “resenha” são divergentes já no mesmo suporte (dicionário). No caso do HOUAISS parece que a entrada “1” já confronta com a “2”, pois ou resenha é uma “descrição minuciosa” (neste caso ela não é crítica) ou ela é um “resumo crítico”, ou seja, traz uma síntese de um conteúdo juntamente com uma avaliação pessoal (crítica). Já no caso do dicionário AURÉLIO, o mesmo não faz referência ao teor crítico da resenha, e a sua entrada “2” aparece como sinônima da entrada “1” do dicionário HOUAISS – “descrição pormenorizada”; também classifica “resenha” como “notícia que abarca certo número de nomes ou fatos similares”, o que parece uma grande confusão, pois resenha e notícia parecem não caminhar no mesmo patamar. Como percebemos já no primeiro momento deste estudo, o conceito para este gênero não parece ser muito simples.

            Como segundo passo para se chegar a um esclarecimento quanto a definição de “resenha”, veremos o que alguns de nossos lingüistas falam sobre o assunto. Segundo Fiorin (1993): “Resenhar significa fazer uma relação das propriedades de um objeto, enumerar cuidadosamente seus aspectos relevantes, descrever as circunstâncias que o envolvem”. Este acrescenta que o objeto resenhado pode ser qualquer acontecimento da realidade, como por exemplo, uma comemoração solene, uma feira de livros; ou textos e obras culturais, como um romance, um filme, uma peça teatral. Para este lingüista o gênero “resenha” pode ser classificado em “resenha descritiva” (aquela que não apresenta nenhuma apreciação ou julgamento de quem a produziu) e “resenha crítica” (aquela que apresenta um juízo crítico do resenhador).

            Diferentemente de Fiorin, Monteiro (1998, p. 22), equipara a resenha a um resumo crítico: “O ponto alto da resenha é a visão crítica de quem a escreve. Além de trazer o assunto devidamente resumido, este é acompanhado de uma análise, de uma visão crítica.”. Desta forma, a classificação de “resenha descritiva” feita por Fiorin não cabe nos moldes desta definição. Esta estudiosa considera o “resumo” como parte da resenha, e não admite que esta não contenha uma crítica, que pode estar inserida no desenvolvimento – articulada juntamente com o resumo –, ou colocada logo após a síntese da obra.

            Segundo Machado (2002), o processo de sumarização é condição básica para a mobilização de conteúdos pertinentes à elaboração de textos pertencentes ao gênero “resenha”, porém este traz “mais que uma simples apresentação concisa dos conteúdos”, traz também interpretações e avaliações sobre este. Acrescenta também, que no caso do gênero “resenha” o resumo[4] (considerado neste contexto apenas como sumarização, não como um gênero textual) é apresentado de forma parcial, já que o objetivo do mesmo é incitar o destinatário a ler uma obra, a assistir um filme, etc.

            Motta-Roth (2002) postula que o gênero “resenha” pode ser considerado como envolvendo um contínuo entre descrição e avaliação, com diferentes exemplares de resenhas tendendo ou para um ou para outro extremo. Por exemplo, resenhas mais objetivas podem ser representadas por textos mais descritivos dos conteúdos, com uma avaliação menos explícita e subjetiva do resenhador. Nota-se que a autora não cita a terminologia “resenha descritiva”, e sim aponta casos em que a ênfase do texto reside na descrição pormenorizada, mas sem deixar de lado seu teor avaliativo (a crítica não está tão explícita quanto em outras resenhas em que a ênfase se concentra mais na análise e avaliação do conteúdo). Para ela, as resenhas podem tender para um extremo avaliativo, quando o resenhador é um “especialista” da área, e parte de seu conhecimento e sua experiência profissional para estabelecer a relevância do “objeto” resenhado.

           

1.1    A Resenha Cinematográfica: a adaptação de um gênero textual

 

            Neste trabalho, tomamos a resenha cinematografia como uma adaptação do gênero “resenha” (que se encontra indexado no intertexto). Para tanto, nos apropriamos deste último, da mesma forma que Motta-Roth, ou seja, um texto crítico por excelência, tendendo, ora para um lado mais avaliativo, ora para um ângulo mais descritivo, dependendo das circunstâncias que o envolvem. Até o momento em que se encontra esta pesquisa não foi encontrado nenhum documento de especialista da área da linguagem ou da área jornalística que se utilize da terminologia “resenha cinematográfica”. Encontramos uma escassa bibliografia que se apropria deste gênero, mas com a denominação de “crítica” ou “coluna”. Optamos por não abandonar nossa nomeação inicial, pois não consideramos a questão da nomenclatura um fator relevante para o estudo de um gênero.

            Segundo Baltar (2004), “crítica” é um gênero jornalístico e opinativo, escrito normalmente em primeira pessoa e assinado, no qual o autor emite sua opinião sobre uma manifestação artística qualquer: livro, CD, espetáculo de dança, teatro, exposição de um artista plástico, etc. Este autor diferencia crítica de resenha, por entender que esta última não traz um aprofundamento do conteúdo exposto e sim apenas “algumas sugestões de leitura”. O que este autor entende por “resenha” parece se assemelhar com a classificação de “resenha descritiva” proposta por Fiorin (já citado no tópico anterior) e sua “crítica” com o que Fiorin chama de “resenha crítica”.

            Barros (2002) ao tratar de dois textos jornalísticos que entram em confronto num mesmo jornal, classifica o que nós chamamos de “resenha cinematográfica” de  “coluna” (um texto feito por uma colunista que emite opiniões sobre um determinado filme). Comparando os dois gêneros – objeto de análise em seu estudo –, a autora afirma:

 

Quanto aos gêneros tratados neste trabalho, a coluna e artigo de opinião, apresentam regras de jogo comuns: é de sua natureza trazer interpretação ou opinião do autor. O papel do autor é de maior aproximação com o seu texto: avaliações e modalizações marcam sua visão de mundo e recursos retóricos são ativados para atingir com maior eficiência o outro parceiro da comunicação, seu interlocutor. (id. p. 204)

 

            Para Berbare (2004, p. 44), “Criticar um filme é observar detalhes, identificar as características típicas da obra, compará-las a outras do gênero, criticar e elogiar o filme.”. Para esta autora, a “crítica de cinema” (como ela nomeou o gênero), presta um serviço de informação ao leitor do jornal ou revista pela visão de um expectador experiente (o crítico, ou resenhador – como nós o chamamos), mas o destinatário da mensagem deve sempre “considerar as informações da crítica a partir de seus próprios critérios de apreciação de filmes”. Ou seja, a crítica deve servir apenas como um parâmetro de avaliação e nunca como um fator decisivo de apreciação de um filme.

 

2. O Interacionismo Sócio-Discursivo

 

            O quadro teórico que se inscreve o Interacionismo sócio-discursivo “leva a analisar as condutas humanas como ações significantes, ou como ‘ações situadas’, cujas propriedades estruturais e funcionais são, antes de mais nada, um produto da socialização” (BRONCKART: 2003, p. 13). É neste quadro teórico que Bronckart faz a abordagem de gênero textual [5] como instrumento de ensino que permite a materialização de uma atividade de ação.

            O modelo de análise proposto por Bronckart apresenta várias etapas, como descrevemos abaixo, muito resumidamente (devido ao caráter restrito deste documento):

            O contexto de produção que pode ser definido “como o conjunto dos parâmetros que podem exercer uma influência sobre a forma como um texto é organizado.” (id. p. 93). Estes parâmetros estão inseridos em dois planos: o mundo físico e o mundo social e subjetivo. O mundo físico é definido por quatro parâmetros: o lugar físico de produção; o momento de produção; o emissor (produtor ou locutor) que produz fisicamente o texto; o receptor que recebe o texto concretamente. Da mesma forma, o mundo social pode também ser decomposto em quatro parâmetros: o lugar social em que o texto é produzido (escola, família, etc.); o enunciador (posição social do emissor: professor, pai, etc.); o destinatário (posição social do receptor: aluno, filho, etc.); o objetivo da interação (efeito que se pretende com o texto). 

            O folheado textual, isto é, três camadas superpostas que tramam a organização dos textos: a infra-estrutura geral do texto (plano geral global, tipos de discursos que se organizam em seqüências e/ou outros tipos de planificação) e os mecanismos de textualização e mecanismos de enunciação.

 

3. Análise do Corpus

 

            Como corpus desta pesquisa foram selecionadas cinco resenhas cinematográficas escritas pela colunista Isabela Boscov, e publicada na revista VEJA entre fevereiro de 2001 a junho de 2003. A escolha do suporte se fez a partir do pressuposto de que tal revista circula nacionalmente, sendo uma das mais lidas dentro do seu formato. O presente corpus é formado pelas resenhas abaixo:

 

1.       “Até tu, Denzel” (filme: Duelo de TitãsRemenber the Titans, Estados Unidos, 2000);

2.       “Humor de fachada” (filme: O Amor é Cego – Shallow Hal, Estados Unidos, 2001);

3.       “Melhor que o livro” (filme: Abril Despedaçado, Brasil, Suíça, França, 2001);

4.       “Inimigo do peito” (filme: A Soma de Todos os Medos – The Sum of All Fears, Estados Unidos, 2002);

5.       “Divino egoísmo” (filme: Todo Poderoso – Bruce Almighty, 2003).

 

3.1 O Contexto de Produção

 

                        O único elemento do contexto físico identificável em todos os textos analisados foi o emissor, ou seja, a “pessoa” Isabela Boscov, embora essa identificação tenha ocorrido externamente, ou seja, a assinatura não faz parte do corpo textual. A partir de hipóteses[6] podemos pensar no lugar físico de produção como sendo, ou uma sala da edição da revista, ou a própria casa da autora, porém, em ambos os casos, parece-nos evidente que  ela escreva seus textos diretamente em um computador (portátil ou não). O receptor de seus textos são os leitores da revista VEJA. Já no que diz respeito ao momento de produção, podemos inferir que, devido ao caráter semanal de sua coluna, a autora não disponha de muito tempo para escrever, pois está subentendido que ela precisa assistir aos filmes que comenta, buscar informações externas (pesquisa), e muitas vezes esta mesma colunista escreve mais que uma resenha por semana, por essas razões, imaginamos que estas são escritas poucos dias antes do fechamento da edição da revista.

            As representações do mundo social, com suas normas e regras que normatizam as interações, no modo como são percebidas pela produtora (autora das resenhas), permitem-nos levantar algumas hipóteses. Desta forma, mesmo externamente às condições de produção, é possível falar no papel social do emissor (que passa agora ao estatuto de enunciador): uma colunista que escreve, semanalmente, resenhas cinematográficas editadas na revista VEJA,  na coluna “Cinema”; neste caso supõe-se que seja uma “especialista” no assunto. Quanto à posição social do receptor (agora destinatário), devido ao status da revista VEJA, ou seja, uma veículo de comunicação mais elitista, destinado à classe média-alta, podemos falar no destinatário como sendo um leitor mais instruído e de faixa etária muito abrangente, já que o assunto “filmes” desperta o interesse de leitores muito diversificados. Já o lugar social da produção, independente do lugar físico em que o texto possa ter sido produzido, reflete uma interação profissional entre a colunista e seu empregador (a revista VEJA).  Sendo este gênero tanto informativo (traz informações sobre o filme, assim como um resumo parcial do enredo) como opinativo (avaliação pessoal), podemos dizer que os objetivos são levar ao conhecimento do leitor informações pertinentes ao filme resenhado (incluindo um panorama parcial do enredo) e convencê-lo de uma “premissa” defendida pela autora com argumentos e contra-argumentos.  

             

3.2 A Seqüência Argumentativa na Resenha Cinematográfica

 

            Em todos os textos analisados referente ao nosso corpus  o conteúdo está organizado com base em um raciocínio argumentativo. Para tanto, a autora faz um “recorte” temático, com o qual ela defenderá uma tese, apresentará argumentos e/ou contra-argumentos e concluirá seu texto. O resumo do enredo do filme é feito parcialmente, servindo sempre como ancoragem para o desenvolvimento dos seus argumentos. A conclusão, geralmente, é feita de forma contundente, reafirmando a premissa inicial.

            Como podemos observar acima, este gênero é estruturado a partir dos pressupostos da seqüência argumentativa esquematizada em Bronckart (2003, p.226), organizada pelas seguintes fases:

 

- a fase de premissas (ou dados), em que se propõe uma constatação de partida;

- a fase de apresentação de argumentos, isto é, de elementos que orientam para uma conclusão provável, podendo ser esses elementos apoiados por lugares comuns (topoi), regras gerais, exemplos, etc.;

- a fase de apresentação de contra-argumentos, que operam uma restrição em relação à orientação argumentativa e que podem ser apoiados ou refutados por lugares comuns, exemplos, etc.;

- a fase de conclusão (ou nova tese), que integra os efeitos dos argumentos e contra-argumentos.

 

                O caráter dialógico[7] da seqüência argumentativa consiste em “isolar um elemento do tema tratado (um objeto do discurso) e em apresentá-lo de um modo que seja adaptado às características presumidas do destinatário (conhecimentos, atitudes, sentimentos, etc.)” (BRONCKART: 2003, p. 234). Desta forma, a seqüência argumentativa opera uma ação de convencimento, a partir de um objeto contestável (na visão do enunciador e/ou do destinatário).  Como corroborar com a questão acima, apresentamos, a seguir,  uma resenha cinematográfica (que integra nosso corpus) em que destacamos as fases da grande seqüência argumentativa que a constitui:

 

 

 

Até tu, Denzel

Outro filme tenta adoçar o amargo racismo americano

 

Premissa                                                               

Seria recomendável que o cinema de Hollywood parasse de prefaciar seus filmes com os dizeres “baseado numa história verdadeira”. Geralmente, é sinal de que as situações mais improváveis vão se suceder. É o que acontece em Duelo de Titãs (Remember the Titans, Estados Unidos, 2000), que estréia nesta sexta-feira em circuito nacional.

                                  

Argumentos                                                                         

1. O problema não está nos fatos, que são reais, mas no tom ufanista que o filme empresta a eles. [Esse drama trata da hostilidade que tomou conta de Alexandria, uma pequena cidade do estado da Virgínia, em 1971, quando as autoridades locais decidiram que brancos e negros passariam a freqüentar a mesma escola. Episódios como esse ocorreram em todo o país, quase sempre de forma dramática – como em Little Rock, no Arkanansas, onde o Exército teve de garantir que as crianças negras cruzassem os portões da escola.]                      

2. Duelo de Titãs prefere uma visão edulcorada da história: no seu entender, não há barreira que não possa ruir quando um punhado de homens de boa vontade resolve fazer a coisa certa.

[O conflito concentra-se em torno da paixão local – o time de futebol americano da escola. Bill, o técnico branco (interpretado por Will Patton), é substituído por Herman, um negro (Denzel Washington, juntando aqui sua credibilidade à chancela do “fato verídico”). Seguem-se as escaramuças de praxe nesse gênero de produção, mas o branco engole o orgulho e decide trabalhar ao lado do recém-chegado. Logo o colega e os jogadores, não importa a sua etnia, percebem que Herman não vai dar moleza a ninguém. Pelo contrário: sua tática é se mostrar democraticamente implacável. O jeitão linha-dura funciona. O time vence todas, brancos e negros descobrem o valor da amizade e até os racistas mais renitentes cedem diante de resultados tão positivos.]

 

Contra-Argumento                                                                                                                                           

Seria lindo, exceto pelo fato de que, nos Estados Unidos, o antagonismo racial ainda não teve um final feliz.

 

Argumento

3. É desanimador, portanto, que uma produção que pretende ensinar princípios morais básicos recorra a tais simplificações. Ao mesmo tempo que aplaude o senso de justiça de seus protagonistas, a fita comete o ultraje de mostrar personagens negros com ar de gratidão canina diante do respeito conquistado.

 

Conclusão

Num certo sentido, o filme até diverte – mérito da química entre Washington, que domina de ponta a ponta o ofício de interpretar santos guerreiros, e Will Patton, um ator bem melhor do que seu papel. Por causa de seu paternalismo, contudo, Duelo de Titãs revela involuntariamente a grande contradição por trás desse tema: seja qual for o sabão, o racismo é uma daquelas manchas insistentes que Hollywood nenhuma lava mais branco.

 

Fonte: BOSCOV, Isabela. Até Tu, Denzel. Revista Veja. Rio de Janeiro: Ed. Abril, 7 fev. 2001, ed. 1686. Cinema, p.117.

 

Obs: Os fragmentos do texto entre colchetes estão ancorando o argumento (grifado) que o antecede.

 

Considerações Finais

 

            Neste trabalho apresentamos resultados parciais de nossa descrição do gênero “resenha cinematográfica” que constituirá em modelo didático deste gênero. Pode-se antecipar, contudo, que são grandes as dificuldades para esta pesquisa, uma vez que tal gênero se apresenta estruturado por um discurso do expor argumentativo, o que representa uma dificuldade maior, já que se trata de descrever uma ação de linguagem baseada no raciocínio argumentativo.

            A análise demonstrou que a resenha cinematográfica é um gênero que apresenta as quatro fases da seqüência argumentativa, cabendo ao analista estudar como se dá a “costura”, a tessitura dessas diferentes fases. Mas isto é assunto para uma próxima etapa do nosso trabalho.

 

Referências Bibliográficas

 

BALTAR, M. Competências discursivas:  gêneros textuais. Caxias do Sul(RS): EDUSC, 2004.

 

BARROS, Nina Célia. “Estratégias de ataque à face em gêneros jornalísticos”. In: MEURER, José Luiz; MOTTA_ROTH, D. Gêneros textuais. Bauru(SP): EDUSC, 2002, p. 199-214.

 

BAKHTIN, M. “Gêneros do discurso” in: Estética da criação verbal. Trad. Maria E. Galvão G. Pereira. São Paulo: Martins Fontes, 1992.

 

BERBARE, Ângela Popovici. “Crítica de cinema: caracterização do gênero para projetos de produção escrita na escola”. In: LOPES-ROSSI, Mª  Apª (org.) Gêneros discursivos no ensino de leitura e produção de textos. Taubaté (SP): Cabral, 2004, p. 41-58.

 

BRONCKART, Jean-Paul. Atividade de linguagem, textos e discursos: Por um interacionismo sócio-discursivo. Trad. Anna Rachel Machado, Péricles Cunha. São Paulo: EDUC, 2003.

 

DOLZ, J.; SCHNEUWLY, B. Pour un enseignement de I’oral. Initiation aux genres formels à l’école. Paris: ESP, 1998.

_______________________. “O oral como texto: como construir um objeto de ensino” in: Gêneros orais e escritos na escola. São Paulo: Mercado das Letras, 2004, p.149-183.

FIORIN, J.L.; SAVIOLI, F.P. Para entender o texto: Leitura e redação. São Paulo: Ática, 1993.

 

MACHADO, Anna Rachel. “Revisando o conceito de resumos”. In: DIONISIO, A.P.; MACHADO, A.R.; BEZERRA, M.A. (orgs.) Gêneros textuais & ensino. Rio de Janeiro: Lucerna, 2002, p.138-150.

 

MONTEIRO, Silvana Drumond. Elaboração de resumos e resenhas. Londrina: EDUEL, 1998.

 

MOTTA_ROTH, Désirée. “A construção social do gênero resenha acadêmica. In: MEURER, J. Luiz; MOTTA-ROTH, D. (orgs.)  Gêneros textuais. Bauru(SP): EDUSC, 2002, p. 77-116.

 

 

 

 

 

                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                  

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

           

                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                    



[1] A noção de “esfera” advém de Bakhtin (1992, p.279): “A utilização da língua efetua-se em forma de enunciados (orais e escritos), concretos e únicos, que emanam dos integrantes duma ou doutra esfera da atividade humana.”

[2] A construção de um modelo didático pode ser considerada a explicitação de um conjunto de hipóteses fundadas sobre certos dados, quando estes estão disponíveis. (DOLZ; SCHNEUWLY: 2004, p.180)

[3] O termo “interdisciplinaridade” é melhor compreendido a partir da leitura dos PCNEM (págs. 88 a 91) que destacam o valor dos alunos pensarem de forma interdisciplinar e globalmente.

[4] Segundo Machado (2002, p.150): “Textos autônomos que, dentre outras características distintivas, fazem uma apresentação concisa dos conteúdos de outro texto, com uma organização que reproduz a organização do texto original, com o objetivo de informar o leitor sobre esses conteúdos e cujo enunciador é outro que não o autor do texto original, podem legitimamente ser considerados como exemplares do gênero resumo de texto.

[5] Bakhtin (1992) fala em “gênero do discurso”

[6] Metodologicamente, a partir das informações referente à situação de ação externa, não podemos podemos formulat senão hipóteses sobre a situação efetiva do agente. (BRONCKART: 2003, p.92)

[7] De acordo com Bronckart (2003), por se basearem em decisões interativas, as seqüências têm um caráter fundamentalmente dialógico.