CINDERELA MODERNA: O GÊNERO CONTO DE FADAS NA ABORDAGEM DO INTERACIONISMO SÓCIO- DISCURSIVO.

 

POZZOBON, Eleny Oliveira Nascimento (UEL-PG)

NASCIMENTO, Elvira Lopes (UEL)

 

 

Introdução

 

 

Este trabalho faz parte do projeto de pesquisa “Modelos Didáticos de Gêneros Textuais.Uma abordagem para o ensino de língua materna,” desenvolvido na UEL, tendo como orientadora a Profª Drª Elvira Lopes Nascimento. Os pressupostos teóricos que dão fundamento a essa pesquisa são baseados em teorias advindas de estudiosos da Universidade de Genebra (Bronckart,1997/2003; Dolz e Schenwly 1998),assim como outros investigadores que vêem o gênero como objeto de ensino.

Partindo do pressuposto de que cada gênero representa um contexto social determinado que supõe uma capacidade de ação do locutor e do interlocutor para seu uso eficaz e capacidades lingüístico-discursivas de que ambos devem se apropriar, quando da produção ou da leitura de um texto pretende-se,com este trabalho, fornecer subsídios para que os professores tenham os gêneros textuais como ferramenta no ensino de língua portuguesa.

Primeiramente apresentaremos a análise do contexto de produção do gênero,buscaremos conhecer o conto de fadas contemporâneo em seus aspectos sócio-históricos e o que os especialistas dizem a respeito desse gênero.Vamos apresentar resultados preliminares da análise e descrição que irão construir um modelo didático do gênero conto de fadas contemporâneo, justificando-se o trabalho com esse gênero pelo interesse que esse gênero na sua concepção moderna desperta nos alunos jovens e adultos do Ensino Médio, o que pode facilitar o trabalho didático a partir dos três eixos norteadores do Ensino Médio: Representação e Comunicação (que visa o uso da linguagem em diferentes situações e contexto), Investigação e Compreensão (que pressupõe a análise lingüística dos recursos de linguagem acionados pelo produtor do texto) e o eixo da Contextualização sociocultural (que vê as linguagens como instrumentos situados no espaço e no tempo,com as implicações de caráter histórico, sociológico e antropológico que isso representa) (cf.PCNEM).Em seguida, apresentaremos a análise da situação de ação do agente-produtor o que segundo Bronckart leva à conceitualização da ação de linguagem como “unidade psicológica”(1999/2003,p.91). Em seguida, apresentaremos a análise do plano geral do texto e do tipo de discurso que nele predomina.

Como corpus dessa pesquisa utilizaremos o conto de fadas Cinderela, na adaptação moderna de Ruben Alves.           

Para a construção de um modelo didático de gênero, utilizaremos a análise proposta por Bronckart (2003) que leva em consideração a arquitetura interna dos textos, que segundo o autor é dividida em infra-estrutura geral, mecanismos de textualização e mecanismos enunciativos.

 

 

1.As condições de produção do texto

 

 

O contexto de produção segundo Bronckart “pode ser definido como um conjunto dos parâmetros que podem exercer uma influência sobre a forma como um texto é organizado”(2003,p.93).

No caso dos contos contemporâneos o lugar de produção é a editora que o publicou, o momento da produção é anterior à publicação.

As histórias são geralmente breves e possuem semelhanças com a original, existe um príncipe, uma pobre moça, a madrasta, o bem/mal aparece bem marcado pelos personagens.

O lugar social da produção é toda a equipe que produziu o livro, o autor o desenhista, ou seja a equipe.

A posição social do emissor ou produtor da obra possui um caráter social e subjetivo, através da sua obra ele, o autor, passa normas e regras que devem ser aceitas e seguidas pela sociedade vigente. No conto tradicional o autor representa os detentores dos meios de produção, e está numa condição superior na sociedade, as regras são repassadas de uma maneira normal, já nos atuais há uma forte predominância da ironia, e do sarcasmo, para criticar os valores da sociedade.

Os receptores são leitores de histórias infantis, principalmente crianças, que talvez ao lerem os contos modernos não percebam que o autor faz uma grande crítica à sociedade e a seus valores.

 

 

 

 

 

2. A infra-estrutura geral dos textos

 

A infra-estrutura geral dos textos é formada pelo plano geral do texto, tipos de discurso que iremos explicar a seguir

 

2.1 O plano geral do gênero conto de fadas

 

 

Para Bronckart, o plano geral refere-se à organização de conjunto do conteúdo temático, mostrando-se visível no processo de leitura, o que pode ser codificado no resumo do texto.

Em relação ao gênero conto de fadas, o plano geral aparece da seguinte forma:

1) titulo: nos contos de fadas contemporâneos primeiro aparece o nome tradicional acompanhado pela expressão “para tempos modernos”;

2) apresentação dos personagens: nas histórias tradicionais os personagens não têm nomes, são conhecidos por suas funções, nos atuais eles possuem nomes próprios;

3)apresentação do tema e alguma situação problema;

4) resolução do problema vivido pelos personagens.

Nos dois modos de narrar histórias tanto as contemporâneas como as tradicionais, a ação e o conflito passam pelo desenvolvimento até o desfecho em crise com resolução no final característica da narrativa.

Os contos de fadas sempre começam com “era uma vez”, os personagens não são localizáveis historicamente, não há uma data específica. O tema do conto de fadas moderno retrata o “horizonte ideológico” da época em que é produzido e, como afirma Bakhtin (1972) , a cada etapa do desenvolvimento da sociedade há grupos de objetos particulares que se tornam objeto da atenção e que tomam um valor particular. Sendo assim, os temas sobre os quais se constituem o gênero conto de fadas moderno são os temas que circulam na sociedade contemporânea em que vivemos: o culto ao corpo físico, à beleza, aos tratamentos rejuvenescedores, à vaidade humana, etc..,  que se transformam em temas históricos e ideológicos de nossa  época.

Ainda que, o  autor se utilize da ironia para abordar esses temas, nos contos tradicionais os temas são apresentados como valores sócio-idológicos que devem ser reforçados na sociedade em que circulam: a beleza espiritual, o caráter silibado, a bondade, a verdade, etc...

 

 

 

 

2.2. Os tipos de discurso

 

 

A noção de tipo de discurso se refere aos diferentes seguimentos que constituem o texto. Para verificarmos os tipos de discurso dos contos de fadas de Ruben Alves, procuramos analisar as formas lingüísticas identificáveis nos textos, que dêem indicações da articulação de diferentes tipos de discurso.

Bronckart se refere à construção de dois mundos ou planos de enunciação, o mundo virtual semiotizado pela linguagem e o mundo ordinário da ação da linguagem. O primeiro, mundo virtual, é chamado de discursivo e o segundo de mundo ordinário.

Considerando os elementos expostos acima, podemos afirmar que esses mundos podem estabelecer uma relação de disjunção ou conjunção em relação ao mundo ordinário. Se disjuntas as representações remetem a fatos passados e atestados (da ordem da história), e a fatos futuros plausíveis ou puramente imaginários, não está ancorado ao mundo real da ação da linguagem. No caso do conto de fadas, podemos afirmar que o mundo discursivo é situado em outro lugar, são mundos da ordem do “NARRAR”. Esse mundo do narrar possui um texto que pode ser autônomo ou implicado. O texto é implicado quando apresentam  dêiticos que remetem à ação da linguagem e é autônomo quando não tem dêiticos que remetam às condições de produção do texto. Com relação ao conto de fadas, ele pertence ao mundo do narrar autônomo e disjunto.

Esses mundos só são identificáveis a partir das formas lingüísticas que os semiotizam, sendo eles dependentes dessas formas.

Para chegarmos a essas conclusões analisamos o contexto de produção do conto de fadas, onde encontramos informações sobre a produção da obra o  seu contexto físico (emissor e receptor), e o social (emissor e destinatário).

 

 

 

 

 

Como afirmamos anteriormente, no conto  o tempo não está ancorado nas coordenadas do espaço e tempo da ação da linguagem. Para chegarmos a essa conclusão fizemos um levantamento lingüístico para detectar as unidades lingüísticas que revelem a articulação com a situação de produção. Essa análise revelou que na narrativa aparecem verbos no pretérito perfeito, pretérito imperfeito, pretérito mais que perfeito e do auxiliar pretérito imperfeito + infinitivo.

As pessoas predominantes aparecem na forma da 3ª pessoa do singular e plural, 1ª e 2ª pessoa aparecem sem valor dêitico, pois não se referem aos interlocutores da situação de interação: produtor/ autor e leitores. Existem presenças de anáforas nominais e pronominais.

A narração é um tipo  de discurso geralmente escrito e sempre monologado, que comporta apenas frases declarativas.

 

3. A transposição didática do gênero

 

 

Voltando a perspectiva didática do trabalho com gêneros, acreditamos que a presença das histórias no ensino é necessária, pois os discursos narrativos oferecem uma gama infinita de analises e interpretações, e é por meio destas que os alunos enriquecem o seu conhecimento de mundo e a sua capacidade discursiva.

Esperamos que com essa análise parcial dos contos possamos contribuir para a leitura e produção de textos da ordem do narrar, pois muitas vezes os alunos acham que dominam o texto narrativo, mas o que se tem observado em situação de vestibular é o contrário, muitos alunos optam por outro tipo de texto por não terem se apropriado de gêneros do agrupamento do narrar, como contos, diário, autobiografia e outros.

Nossa intenção com os modelos didáticos de ensino é oferecer aos professores uma ferramenta de trabalho, que o auxiliem no ensino-aprendizagem da língua portuguesa.

 

 

Referências Bibliográficas

 

BRONCKART, Jean Paul. Atividade de linguagem, textos e discurso: Por um interacionismo sócio-discursivo. EDUC – São Paulo: PUC,2003

 

DOLZ, Joaquim e Schneuwly, B. Gêneros orais e escritos na escola.Trad.Roxane Rojo e Glaís Sales Cordeiro. São Paulo: Mercado das Letras, 2004

 

COELHO, Nelly Novaes. O Conto de fadas. São Paulo, Ática 1987

 

BRANDÃO, Helena Nagamine. Gêneros do discurso na escola: Mito.Conto.Cordel.Discurso Político. Divulgação Cientifica. São Paulo, Cortez 2000.

 

BAKHTIN,M.Gêneros do discurso. In: Estética da criação verbal. São Paulo: Martins Fontes, 1992

 

ALVES, Rubens. Cinderela para o tempo atual.Campinas: Papirus, 2004