Gramática: um diagnóstico da abordagem no ensino médio na escola pública

 

 

Meire de Longhi ROSOLEN (UEL-PG)

Questionamento / Problema:

-          O ensino gramatical no nível médio em uma escola pública é abordado de modo estanque ou contextualizado, conforme preconiza os PCNs (BRASIL, 1998) ou os PCNEM (BRASIL, 1999)?

 

Tema:

-          Ensino gramatical no nível médio.

 

Objeto:

-          Ensino gramatical na 3ª série de uma escola pública do nível médio.

 

Objetivo geral:

-          Diagnosticar o ensino gramatical em uma escola pública de nível médio.

 

Objetivos específicos:

-          Descrever e analisar a abordagem do ensino gramatical em uma turma de terceira série do ensino médio, buscando verificar se o ensino da gramática é realizado de modo contextualizado ou se o texto é apenas um pretexto para tal abordagem ou, ainda, se o ensino gramatical é levado a efeito apenas teórico-prescritivamente.

-          Apresentar possibilidades de intervenção para que haja um trabalho voltado para a gramática contextualizada.

 

Justificativa:

Muito se tem falado sobre o ensino de Língua Portuguesa no contexto escolar brasileiro. As propostas mais recentes postulam que o que deve ser trabalhado em sala de aula são os fatores ligados às práticas de linguagem. Porém, a maioria dos professores, tanto de ensino fundamental, quanto do médio, tem uma grande dificuldade no que diz respeito às concepções de linguagem e ao ensino gramatical que devem ser adotadas no contexto escolar. Estas dificuldades já aparecem mesmo estando, ainda, na graduação, pois, no decorrer do curso de Letras, vemos várias teorias a respeito da prática pedagógica, porém quando nos deparamos com o estágio percebemos que a prática é muito diferente do que aprendemos durante o curso.

São a partir destas preocupações, que se iniciou o projeto de pesquisa etnográfica em Lingüística Aplicada: Escrita e ensino gramatical: um novo olhar para um velho problema, desenvolvido pelo Departamento de Letras Vernáculas e Clássicas da Universidade Estadual de Londrina (UEL), coordenado pela Professora Doutora Alba Maria Perfeito, que tem como propósito fazer com que os professores envolvidos na pesquisa reflitam sobre o trabalho pedagógico que vem realizando, principalmente em relação ao ensino da gramática, e sobretudo, mostrar-lhes que é possível aprimorar sua formação profissional.

O trabalho enfocado nesta monografia se insere como projeto-piloto do projeto citado e pretende, primeiramente, descrever e analisar o ensino de língua portuguesa, mais precisamente, o ensino gramatical em uma 3ª série do ensino médio, verificando se o trabalho com a gramática é realizado de forma contextualizada, e, depois, apresentar alguns caminhos para tal abordagem seja trabalhada de modo satisfatório.

 A escolha de uma turma de terceiro ano do ensino médio de uma escola pública se justifica pelo fato de já terem sido realizados trabalhos com professores de quartas e oitavas séries, que correspondem às séries finais dos ciclos de ensino fundamental, mas não com qualquer série do ensino médio. Além disso, a 3ª série de nível médio é o último ano dos alunos na escola e será interessante perceber se os professores só estão preocupados com a próxima etapa que, para muitos, será o exame vestibular ou se estão interessados em formar alunos críticos e preparados para a concorrência existente no mercado de trabalho.  

 

Metodologia:

A pesquisa em pauta, como já mencionado, se insere como projeto-piloto do Projeto de Pesquisa Escrita e ensino gramatical: um novo olhar para um velho problema, caracterizado como pesquisa diagnóstica etnográfica em Lingüística Aplicada (LA), desenvolvido pelo Departamento de Letras Vernáculas e Clássicas da Universidade Estadual de Londrina (UEL), coordenado pela Professora Doutora Alba Maria Perfeito. E tem como foco o ensino/aprendizagem de Língua Portuguesa, observando qual o procedimento metodológico adotado pelo professor da sala de aula pesquisada, em relação ao ensino gramatical. 

Para realização desta monografia está sendo feita, primeiramente, a leitura de alguns textos teóricos básicos necessários para que seja possível, posteriormente, a realização do trabalho de campo onde serão coletados os dados necessários para esta pesquisa.

A coleta de dados será realizada em uma escola pública estadual de ensino fundamental e médio localizada no centro da cidade de Rolândia, Estado do Paraná, através de observações, gravações em áudio e anotações em diários de dez horas/aula de Língua Portuguesa ministradas em uma terceira série do ensino médio. Depois dos materiais coletados, serão feitas as transcrições e a análise destas aulas, verificando se o trabalho com a gramática é feito de modo contextualizado ou se o ensino de Língua Portuguesa ainda se encontra pautado no ensino teórico-prescritivo da norma padrão. Concomitantemente com análise destes dados, serão realizadas as leituras necessárias para a fundamentação teórica deste trabalho, buscar caminhos de intervenção para que o  (possível) problema apresentado possa ser resolvido ou, melhor, minimizado.

 

Cronograma:

 

 

Mar.

Abr.

Mai.

Jun.

Jul.

Agos.

Set.

Out.

Nov.

Dez.

Jan.

Leituras específicas

X

X

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Trabalho de campo

 

 

 

 

X

X

 

 

 

 

 

Fundamentação teórica

 

 

X

X

X

X

 

 

 

 

 

Análises

 

 

 

 

 

 

X

X

X

 

 

Conclusão

 

 

 

 

 

 

 

 

 

X

 

Entrega da monografia

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

X

 

 

Referencial teórico

Uma das dúvidas mais freqüentes em relação ao ensino de língua portuguesa se refere ao ensino de gramática, se devemos ensiná-la ou não na escola, ou ainda “para quê ensiná-la e como ensiná-la” (CECILIO, 2004, p.18).

Há, pelo menos, três concepções de linguagem relacionadas com o ensino de língua portuguesa em sala de aula: a linguagem como expressão de pensamento; a linguagem como instrumento de comunicação e a última concepção que vê linguagem como processo de interação (PERFEITO, 2003). Estas três possibilidades de concebermos a linguagem também são postuladas por autores como Geraldi (2002), por Travaglia (2000) e por Cardoso (1999).

Assim como Perfeito (2003), outros autores como Travaglia (2000), Cardoso (1999), consideram de fundamental importância que o professor tenha conhecimento destas três concepções de linguagem, para que assim possa estar ciente de qual concepção é a mais significativa para o ensino de língua portuguesa no contexto escolar.   

A primeira concepção de linguagem, que vê a linguagem como expressão do pensamento, é a que fundamenta os estudos tradicionais, ou seja, o ensino gramatical. Porém, está concepção nos dá uma visão bem restrita da linguagem, já que, através dela, temos a idéia de que “pessoas que não conseguem se expressar, não pensam”. (GERALDI, 2002, p. 41). O ensino de língua portuguesa pautado nesta concepção de linguagem privilegia somente o domínio das regras prescritas pela gramática normativa, deixando de lado as atividades relacionadas à leitura e à produção de texto, conforme enfatiza Perfeito (2003).

Já na segunda concepção de linguagem – linguagem como instrumento de comunicação – a língua é concebida como um código, “capaz de transmitir uma mensagem de um emissor a um receptor” (PERFEITO, 2003, p. 33); e está relacionada ao estruturalismo e ao transformacionalismo, conforme postula Geraldi (2002), no qual o falante perde seu papel no sistema lingüístico, o que importa é o domínio do código pelo emissor e pelo receptor. De acordo com Perfeito (2003) esta concepção, apesar de trazer inovações, ainda vê o ensino/aprendizagem de língua portuguesa pautado no ensino gramatical. Porém, a leitura e produção de textos começam ter uma maior importância dentro da sala de aula.

A terceira e última concepção de linguagem, na qual a linguagem é vista como interação humana, deixa de lado a idéia de que aprender português significa a realização de atividades repetitivas ou da mera decodificação ou preenchimento de estruturas modulares, conforme preconiza Perfeito e Cecílio (2005). Nesta concepção, “a linguagem deixa de ser vista apenas como instrumento de comunicação e de transmissão de informação, para ser vista como uma forma de atividade entre protagonistas do discurso” (CARDOSO, 1999, p. 21).

Cabe, então, ressaltar que no trabalho em foco estaremos pautados na terceira concepção de linguagem, pois acreditamos que ela é a que melhor auxilia o professor em sua prática pedagógica e por ser a concepção que norteia os Parâmetros Curriculares Nacionais (BRASIL,1999) de Língua Portuguesa. Já que, atualmente, este é o documento que serve de base referencial em relação às discussões relativas à organização do trabalho escolar.

De acordo com os PCNEM (BRASIL,1999), o trabalho com a gramática deve deixar de ser embasado na idéia de que saber falar ou escrever bem significa decorar regras gramaticais e que existe, apenas, uma forma correta. Mas como há uma longa tradição do ensino que valoriza a norma culta, a gramática tradicional, sabemos que esta continua a ter seu espaço garantido no contexto escolar.

Muitas pesquisas em Lingüística Aplicada têm sido realizadas nos últimos anos na área de ensino/aprendizagem de português, principalmente em se tratando do ensino de línguas, buscando soluções significativas no desenvolvimento de tais pesquisas. De acordo com Celani (2000), a LA tem um campo extenso para atuar, já que seu instrumento de trabalho é a linguagem, e, esta, está presente em qualquer contexto social. Ela tem como objetivo “contribuir com soluções e propostas de encaminhamento para os problemas detectados no cotidiano do uso social da língua” (PERFEITO; CECILIO, 2005, p. 91).

Como o que é proposto neste trabalho, a LA tem como ponto de partida de suas pesquisas a observação dos processos de interação de linguagem. Pesquisas de cunho etnográfico, como a realizada nesta monografia, buscam através dos dados coletados por meio de anotações, gravações em áudio, diários descritivos, etc, identificar o problema que deve ser solucionado, e, depois intervir no trabalho prático-teórico-pratico juntamente com os sujeitos envolvidos em tal pesquisa.

 

Referências

ANTUNES, I. C. A análise de textos da sala de aula: Elementos e aplicações. In: MOURA, Denilde (Org.).  Língua e ensino: dimensões heterogêneas. Maceió: EDUFAL, 2000.

BRASIL, Ministério da Educação e do Desporto. Parâmetros Curriculares Nacionais. 1° e 2º ciclos do ensino fundamental. Brasília: SEF, 1997.

BRASIL, Ministério da Educação e do Desporto. Parâmetros Curriculares Nacionais. 3° e 4° ciclos do ensino fundamental. Brasília: SEF, 1998.

BRASIL, Ministério da Educação e do Desporto. Parâmetros Curriculares Nacionais. Ensino Médio. Brasília: SEF, 1999.

BARBOSA, J. P. Do professor suposto pelos PCNs ao professor real de língua portuguesa: são os PCNs praticáveis? In: ROJO, Roxane. (Org.). A prática de linguagem em sala de aula. Praticando os PCNs. São Paulo: EDUC/Campinas: Mercado das Letras, 2000. p. 149-182.

BRITO, L. P. L. A sombra do caos: ensino de língua x tradição gramatical. Campinas: ALB/Mercado de Letras, 1997.

CARDOSO, S. H. C. Discurso e ensino. Belo Horizonte: Autêntica, 1999.

CECILIO, S. R. Investigando a própria ação: reflexões sobre o ensino da gramática na 8ª série. 2004. Dissertação (Mestrado em Estudos da Linguagem) – Universidade Estadual de Londrina, Londrina.

CELANI, M. A. A. A relevância da Lingüística Aplicada na formulação de uma política educacional brasileira. In: FORTKAMP, M. B. M. & TOMITCH, L. B. M. (Orgs.). Aspectos da Lingüística Aplicada: estudos em homenagem ao Professor Hilário Inácio Bohn. Florianópolis: Insular, 2000. p.17-32.

CHERON, M. M. Lingüística Aplicada e ensino de gramática em língua materna: o processo diagnóstico em uma quarta série. 2004. Dissertação (Mestrado em Estudos da Linguagem) – Universidade Estadual de Londrina, Londrina.

FÁVERO, L. et al. Oralidade e escrita: perspectivas para o ensino de língua materna. São Paulo: Cortez, 1999.

GERALDI, J. W. (Org.). O texto na sala de aula. 3.ed. São Paulo: Ática, 2002.

____. Portos de Passagem. 4.ed. São Paulo: Martins Fontes, 2000.

____. Linguagem e Ensino – exercícios de militância e divulgação. Campinas: Mercado da Letras/Associação de Leitura do Brasil. 1996.

KLEIMAN, A. B. Concepções da escrita na escola e formação do professor. In: Aulas de português: perspectivas inovadoras. VALENTE, André. (Org.). Petrópolis: Vozes, 2000.

____. A formação do professor: perspectivas da Lingüística Aplicada. Campinas: Mercado de Letras, 2001.

MATÊNCIO, M. L. M. Leitura, produção de textos e a escola. Campinas: Mercado das Letras, 1994.

MENDONÇA, M. C. Língua e ensino: políticas de fechamento. In: MUSSALIM, Fernanda e BENTES, Ana Christina (Orgs.). Introdução à Lingüística: Domínios e Fronteiras. São Paulo: Cortez, 2001. p. 233-264.

MOITA LOPES, L. P. Oficina de Lingüística Aplicada: a natureza social e educacional dos processos de ensino-aprendizagem de línguas. Campinas: Mercado de Letras, 1996.

MORAIS, G. S. Formação continuada do professor de língua portuguesa. In: MOURA, D. (Org.). Língua e ensino: dimensões heterogêneas. Maceió: EDUFAL, 2000.

NANTES, E. A. S. Uma reflexão sobre o ensino de gramática em língua materna à luz dos pressupostos teóricos da lingüística aplicada. 2005. Dissertação (Mestrado em Estudos da Linguagem) – Universidade Estadual de Londrina, Londrina.

NÓBREGA. M. J. Perspectivas para o trabalho com análise lingüística na escola. In: AZEREDO, José Carlos de (Org.). Língua em debate. Petrópolis: Vozes, 2000,

NEVES, M. H. M. A Gramática: história, teoria e análise, ensino. São Paulo: Editora da Unesp, 2002.

____. A gramática: conhecimento e ensino. In: AZEREDO, José Carlos de (Org.). Língua Portuguesa em debate: conhecimento e ensino. Petrópolis: Vozes, 2000, p.52-73.

PERFEITO, A. M. Escrita e ensino gramatical: um novo olhar para um velho problema. Projeto de Pesquisa. Londrina: Departamento de Letras Vernáculas e Clássicas/UEL, 2003.

PERFEITO, A. M.; CHERON, M. M. Reflexões sobre a gramática no processo de ensino/aprendizagem de língua portuguesa. Signum: Estudos da Linguagem. Londrina, n. 7/2, p. 133-163, dez. 2004.

PERFEITO, A. M.; CECILIO, S. R. Ensino-Aprendizagem gramatical: diagnóstico de uma pesquis(a)ção. Signum: Estudos da Linguagem. Londrina, n. 8/2, p. 83-107, dez. 2005.

POSSENTI, S. Por que (não) ensinar gramática na escola. Campinas: Mercado de Letras, 1996.

SIGNORINI, I. Do residual ao múltiplo e ao complexo: o objeto de pesquisa em Lingüística Aplicada. In: SIGNORINI, I.; CAVALCANTI, M. C. (Orgs.). Lingüística aplicada e transdisciplinaridade: questões e perspectivas. Campinas: Mercado de Letras, 1998.

SILVA, R. V. M. Contradições no ensino de português: a língua que se fala x a língua que se ensina. São Paulo: Contexto, 1997.

SOARES, M. Linguagem e escola. São Paulo: Ática, 1989.

SUASSUNA, L. Ensino de língua portuguesa – uma abordagem pragmática. Campinas: Papirus, 1995.

TRAVAGLIA, L. C. Gramática e Interação: uma proposta para o ensino de gramática no 1º e 2º graus. São Paulo: Cortez, 2000.

____. Gramática: ensino plural. São Paulo: Cortez, 2003.