Sobre a estrutura narrativa

Rosemeri Passos Baltazar MACHADO (Docente – FACCAR)

 

Pensando nas transformações que, geralmente, ocorrem dentro de uma narrativa, deve-se atentar para o fato de que, conforme já sabido, não existe uma estrutura fixa a ser seguida. Todavia existe uma estrutura e para compreendê-la é preciso saber identificar os participantes da história e quais são seus papéis, ou seja, qual é e como é seu fazer transformador. Partindo para o âmbito pedagógico, pode-se dizer que este é um dos  pontos que merece muita atenção, principalmente nos trabalhos que envolvem a leitura e a produção de textos. Este trabalho pretende demonstrar por meio da localização de determinados elementos do percurso narrativo as diferentes relações entre o sujeito e o chamado objeto, em fragmentos de crônicas jornalísticas.

 

Palavras-chave: estrutura narrativa – sujeito - objeto

 

 

INTRODUÇÃO

 

A compreensão da organização narrativa está ligada a uma série de fatores, como por exemplo saber identificar o espaço, os participantes e o que cada um representa dentro dessa estrutura. Entretanto, isso não quer dizer que deva haver uma estrutura fixa ou pré-determinada a toda e qualquer estrutura. A narrativa pode ser pensada a partir das mudanças que o indivíduo pode provocar no mundo ou a partir da comunicação entre enunciador e enunciatário. Importante observar que é em meio a esse processo de transformação que a relação com o objeto-valor pode ser compreendida, mas para tanto se deve atentar, também, para o fato de que entre o sujeito e seu objeto-valor existem os chamados estados de tensão. Lembrando BARROS (2002, pág. 17) no que diz respeito ao enunciado elementar da sintaxe narrativa:  “A relação define os actantes; a relação transitiva entre sujeito e objeto dá-lhes existência, ou seja, o sujeito é o actante que se relaciona transitivamente com o objeto, o objeto aquele que mantém laços com o sujeito.”

Com base em tais aspectos e no trabalho pedagógico, principalmente no que se refere à leitura e produção de texto, como pontos que devem ser pensados e devidamente refletidos, o presente artigo se propõe a apresentar alguns comentários referentes à organização da sintaxe narrativa dentro do gênero crônica jornalística.

Para tanto, serão apresentados fragmentos de uma crônica jornalística escrita por Arnaldo Jabor, retirada do site do Jornal da Globo (ver anexo - 1), intitulada “É para sentar e chorar.”    

 

 

2 – A organização da estrutura narrativa

 

 

Ao se falar em texto e em efeitos de sentido, segundo a perspectiva semiótica é importante entender que tais sentidos vão sendo construídos, Por isso é que se diz percurso gerativo de sentido e durante o processo, o percurso que os sentidos vão sendo construídos e, conseqüentemente, apreendidos.

O texto é autônomo pois é o único responsável pela construção dos sentidos, é ele que aponta para o contexto, não quer dizer que os conhecimentos prévios não sejam importantes, afinal, são esses conhecimentos que vão revelar o sócio-histórico. Ao analisar uma fotografia, por exemplo, percebe-se a presença de um esquilo em meio à neve, existem dados que apontam para a interpretação de que a foto não foi tirada no Brasil, uma vez que se sabe que este animal não é típico da fauna brasileira e que a neve não característica do clima tropical desse país.

Como se pode notar, a linguagem não é transparente, há sempre informações implícitas, além das explícitas. A significação do texto vai além do que o produtor prevê, por isso é importante que haja competência tanto por parte do enunciador quanto do enunciatário (sujeitos imprescindíveis nesse jogo de significação discursiva). De acordo com FIORIN (1996, pág. 33) o sujeito necessita de competências pertencentes a várias ordens para conseguir entender e se fazer entendido, dentre elas pode-se citar:

a)                           a competência lingüística que é aquela em que o falante demonstra conhecer a gramática para poder produzir enunciados gramaticais e não-gramaticais;

b)                          a competência discursiva que envolve a competência narrativa (referente às transformações de estado) e a competência discursiva propriamente dita (que diz respeito aos aspectos figurativos e temáticos, aos atores, ao espaço, ao tempo e aos recursos argumentativos, aos discursos citados, etc.) No que se refere à argumentatividade, pode-se dizer que o fazer crer é de suma importância no processo comunicativo. Segundo FIORIN (Revista Organo, no 23, pág. 163 – 173): “Argumentação é qualquer mecanismo pelo qual o enunciador busca persuadir o enunciatário a aceitar seu discurso, a acolher o simulacro de si mesmo que cria no ato de comunicação;”

c)                           a competência textual que se refere ao saber empregar os termos de forma adequada ao veículo em que o discurso se fará presente;

d)                          a competência interdiscursiva que diz respeito à “heterogeneidade constitutiva do discurso”, ou seja, sabe empregar ou entender as marcas que existem  dentro de um discurso (podendo ser mostradas ou não). Conforme MAINGUENEAU (1996, pág. 50):

 

“‘Narrativa’ e ‘discurso’ são conceitos lingüísticos que permitem analisar enunciados; não são conjuntos de textos. Nada impede que um texto misture esse dois planos enunciativos. Aliás, é a regra geral no que diz respeito aos textos de ‘narrativa’, que poucas vezes são inteiramente homogêneos e que dificilmente apagam todas as marcas de subjetividade enunciativa.”

 

e)                           competência intertextual que se refere à capacidade de relacionar um determinado texto com outros (reconhecer ou fazer reconhecer outros textos);

f)                            competência pragmática que diz respeito aos atos ilocutórios, ou seja, está mais relacionada ao fazer-fazer. 

 

 

3- Relações entre sujeito e objeto no texto

 

 

O gênero a ser analisado é uma crônica de Arnaldo Jabor (www.globo.com/jornaldaglobo), de 08 de julho de 2006. Nesta crônica, o jornalista faz uma crítica àqueles que estão sempre acreditando que a situação vai melhorar, que as coisas, um dia, darão certo, enfim, segundo ele, os resultados acabam por demonstrar que esta ideologia sempre revela o fracasso daquilo em que se acredita e, por isso, essas pessoas acabam se tornando descrentes, principalmente no que se refere ao sistema.

Logo no início, percebe-se que este texto não demonstra um sujeito que transforma, ou seja, os otimistas são colocados como sujeitos que não estão em conjunção com “o mundo bom” e mesma idéia persegue até o final:

 

Os idiotas sempre esperam a chegada de um mundo bom. Eu sou um deles. (...)

 

Um dos únicos momentos, dentro da situação enunciativa, em que se poderia pensar em transformação seria quando o enunciador enumera alguns aspectos referentes ao sistema político:

 

(...) Primeiro acreditamos no socialismo, na justiça e igualdade. Mas tudo acabou numa mistura de falência e corrupção.

 

Neste caso, se o socialismo tivesse dado certo, o sujeito de estado (“idiotas da esperança”) entrariam em conjunção com o objeto “mundo bom” (ou dinheiro no bolso, ou ainda, estabilidade econômica) e, por conseqüência sofreria uma transformação, ou seja, seria visto como um objeto de transformação, entretanto, como ambos só levam à “falência e corrupção” a conjunção com o objeto-valor não se concretizou e o que predominou foi a situação disfórica.

Importante salientar que toda essa tentativa de mudança é feita de maneira irônica. Existe um enunciador que faz uso de certos elementos sintáticos proporcionando assim, um certo tom de deboche e até de descomprometimento por parte  do próprio enunciador. Um dos elementos mais empregados, sem dúvidas, foram as aspas. Primeiramente, as aspas são empregadas para demarcar um pensamento pertencente ao sistema capitalista, ou seja, destacam uma ideologia:

 

A globalização e o mercado vão resolver a vida dos subdesenvolvidos.

 

Já num outro momento, as aspas identificam uma idéia do povo brasileiro que ainda acredita e espera que tudo vai melhorar:

 

É”, pensamos nós, os idiotas, “mas os EUA são um país ético e confiável!!!” (...)

(...) “ahhh, mas amanhã o Bush vai à TV fazer um discurso indignado contra esses crimes!!!

 

Nos dois últimos casos, citados acima, as aspas apontam para um tipo de discurso, o discurso direto. O enunciador dá voz a um outro, o locutor, e este , por sua vez, profere determinadas idéias, mas não se compromete, não assume qualquer responsabilidade pelo enunciador (afinal, são os pensamentos do capitalismo e idéias do povo, respectivamente, não do locutor). Sobre as aspas MAINGUENEAU (1997 pág. 90) comenta:

 

 “... as aspas designam a linha de demarcação que uma formação discursiva estabelece entre ela e seu ‘exterior’; um discurso efetivamente só pode manter à distância aquilo que ele coloca fora de seu próprio espaço. Uma formação discursiva se estabelece entre estes dois limites, a saber, um discurso totalmente entre aspas, do qual nada é assumido, e um discurso sem aspas que pretende um discurso sem aspas que pretenderia não estabelecer relação com seu exterior.”

 

 Retomando a idéia de transformação na narrativa, ao falar dos resultados proporcionados pelo capitalismo pode-se dizer que ocorre uma alteração na maneira pela qual o sujeito se relaciona com o objeto-valor (pobreza), isto é, houve uma alteração na tensividade entre o sujeito e o objeto-valor. Não houve mudanças, mas sim apenas uma transformação originada por tal tensividade:

 

Deu zebra: os pobres pioraram e não teve colher de chá para país pobre, emergente.

 

Entretanto, se se pensar nos estados de conjunção e disjunção com o objeto valor dinheiro/situação econômica estável; não se pode dizer que antes havia uma conjunção num estado inicial e passou para uma disjunção num estado final. Sendo assim, não se pode descrever tal narrativa mínima como sendo de privação (o sujeito inicia em conjunção com algo e termina em disjunção com este algo). Desde o início, o sujeito se encontra em disjunção com o objeto valor (o sistema socialista era ruim, já não havia igualdade, justiça, dinheiro; no capitalismo continua não havendo). Enfim, o fato da situação ter piorado para o pobre implica uma transformação que não foi mediada por uma performance, pois o sujeito continua em disjunção com o objeto-valor (riqueza). E mais uma vez, o tom irônico é revelado, agora por meio do clichê “colher de chá”, expressão esta que enfatiza o deboche pretendido pelo enunciador.

Percebe-se que há uma narração na qual o discurso relata a situação de um personagem individualizado (primeiramente o povo pobre e depois países emergentes), no entanto a situação descrita é sempre a mesma. No que se refere à sintaxe narrativa, pode-se dizer que os enunciados de estados são os que se destacam.

A partir do estado de disjunção do povo, outros sujeitos enunciativos vão entrando em conjunção e, por conseqüência, se transformando, como no caso de Bush.

 

...mostrou  que o Bush também enriqueceu assim. Ele e o vice dele, o Dick Cheney. Os dois ficaram ricos com informações privilegiadas em suas empresas, a Harken a Halliburton, na década de 80.

 

O verbo “enriqueceu”, transmite a idéia de processo, de mudança de um estado (pobre) para outro (rico). Lembrando BARROS (2002, pág. 23) os programas narrativos sempre apresentam estados de conjunção e de disjunção, afinal existem, sempre, sujeitos e objetos de valor: “É fácil perceber que os programas narrativos projetam sempre um programa correlato, isto é, se um sujeito adquire um valor é porque outro sujeito foi dele privado ou dele se privou.

Com referência às competências descritas anteriormente o enunciador revelou grande domínio, principalmente no que diz respeito à argumentação, pois houve a preocupação em enriquecer a narrativa utilizando idéias e definições ideológicas pertencentes a cada sistema político sempre entre aspas. Daí a facilidade em perceber o desdobramento do enunciador na figura de um locutor. Nota-se aí a chamada debreagem enunciativa, pois há a projeção de um “eu”, num tempo “agora” e num “espaço” (aqui, no Brasil) revelando assim, a subjetividade desse enunciador em se colocar no mesmo patamar de quem ele chama de “idiotas”. 

 

 

4 – Considerações finais

 

Um primeiro ponto a ser observado no presente artigo é a importância de se pensar a linguagem como um todo significativo, ou seja, não há como produzir ou captar efeitos de sentidos se não pensar num sujeito competente. Assim sendo, é necessário o sujeito tenha domínios diversos, ou seja, conhecimentos que vão da gramática ao conhecimento textual-discursivo.

Outro aspecto, embora não tenha sido comentado de forma direta neste artigo, mas  que está estritamente ligado ao primeiro, é com relação à importância do trabalho com os mais diversos tipos de gêneros. Pensando no âmbito pedagógico, pode-se afirmar que o trabalho com diversos gêneros acaba por fornecer maiores subsídios no que ser refere de compreensão e de se fazer compreendido, enfim, propicia o desenvolvimento e o aprimoramento das competências do sujeito.

A crônica jornalística selecionada para este trabalho, como se pôde verificar, se trata de um gênero rico, agradável e, ao mesmo tempo, divertido, uma vez que a crítica é colocada de forma irônica. Pode-se dizer que esse mecanismo auxiliou na verificação, não apenas dos elementos presentes na narrativa, mas principalmente, dos meios pelos quais os programas narrativos se constituem. Provando, mais uma vez, que o programa narratológico existe, mas a organização de tal programa não deve ser entendida como uma estrutura fixa. O estudo da narrativa não se prende mais só às ações, o importante é estar atento às projeções dentro do enunciado para a compreensão dos efeitos de sentido.

 

5 - Bibliografia

 

 

BARROS, Diana Pessoa. Teoria semiótica do texto. 4 ed. São Paulo: Ática, 2002.

FIORIN, José Luiz. Elementos da análise do discurso. São Paulo: Contexto, 1996

_____________. A noção de texto na Semiótica.  Revista Organon no 23. Universidade Federal do Rio Grande do Sul.

MAINGUENEAU, Dominique. Elementos de lingüística para o texto literário. Trad. Maria Augusta Bastos de Matos. São Paulo: Martins Fontes, 1996

_____________. Novas tendências em análise do discurso. Trad. Freda Indursky. 3 ed. São Paulo: Pontes,1997.

JABOR, Arnaldo. É para sentar e chorar. http://jg.globo.com/JGlobo/0,19125,VTJ0-2742-20031112-13016,00.html, 8 de julho de 2002.

 

 

6 – ANEXO - 1

 

 

Arnaldo Jabor critica os que sempre vêem na ideologia mais em voga a cura para todas mazelas do mundo. A realidade acaba sempre os desautorizando.

Os idiotas sempre esperam a chegada de um mundo bom. Eu sou um deles. Primeiro acreditamos no socialismo, na justiça e igualdade. Mas tudo acabou numa mistura de falência e corrupção.

Aí os idiotas acreditaram no capitalismo salvador. “A globalização e o mercado vão resolver a vida dos subdesenvolvidos.”

Deu zebra: os pobres só pioraram e não teve colher de chá para país pobre, emergente.

"É”, pensamos nós, os idiotas, “mas os EUA são um país ético e confiável!!!" Outro bode: a Enron roubou, a World Com roubou, outras roubaram e agora a Merck meteu a mão grande.

Mas, ainda com esperança, os idiotas pensam: “ahhh, mas amanhã o Bush vai à TV fazer um discurso indignado contra esses crimes!!!

Outra zebra: a imprensa norte-americana mostrou que o Bush também enriqueceu assim. Ele e o vice dele, o Dick Cheney. Os dois ficaram ricos com informações privilegiadas em suas empresas, a Harken e a Halliburton, na década de 80.

Quer dizer, o capitalismo onipotente faz o que quer no mundo e no plano ético os EUA estão virando a Nigéria.

Aí, nós, os idiotas da esperança, sentamos no meio fio e choramos lágrimas de esguicho.